terça-feira, 15 de maio de 2012

A Caixinha do Grande Rei


Era uma vez em uma terra muito distante uma princesinha linda, chamada Ariana, seu pai, o Altíssimo Rei era sábio e conhecia o coração das pessoas, de todas as pessoas do Reino. Amava a todos e tinha muitos filhos, o Altíssimo Rei tinha um apego especial pela princesa Ariana e deu muitos presentes a ela, das aves do céu conseguiu o canto mais lindo, das feras da terra conseguiu a graça dos mais suaves movimentos, se baseando nas mais belas flores, fez a roupa que a cobria e do fundo do mar e de dentro das cavernas retirou as jóias mais lindas para adornarem-na.
Ariana era feliz, mas queria no fundo desbravar as aventuras que tinha ouvido dizer que haviam do lado de fora da Corte do Altíssimo, pensou em fugir de casa para ver tudo e depois então voltaria para seu palácio, mas o Rei não era alguém que podia ser enganado e no dia da fuga foi ver sua filha:
_ Estás decidida a ir não estás pequena?
_ Desculpe Papai, mas eu tenho que fazer isso, tenho que ir, porém, prometo que vou voltar pra casa, de verdade Papai. Promessa de princesa!
_ Oh minha filha, gostaria Eu que fosse tão fácil, se te vais agora, talvez o mundo lá fora te seduza e tu te esqueças do Pai que te espera aqui dentro.
_ Oh não Papai! Nunca irei esquecer-te, nunca poderia, eu vou voltar eu prometo.
_ Vai... Vai voltar sim, porque farei com que não esqueça, pegue... Esta caixinha tem algumas coisas que você vai precisar para voltar para casa Filhinha, será a única coisa do palácio, fora as roupas que poderás levar, teus adornos ficarão comigo e teus dons não Quero que leves para gastá-los com o que há lá fora, tenho chorado noites inteiras pensando nos teus irmãos que também foram, alguns deles nunca voltaram e desperdiçaram tudo o que Eu lhes dei no mundo.
_ Mas... Papai... O Senhor está... Chorando? – Ariana olhou nos olhos do Pai, que sempre tinha visto como um Rei, tão grande e majestoso, tão poderoso e Altivo às vezes, tão sorridente quando estava com ela, Ele sempre tivera os melhores abraços e os melhores sorrisos pra ela e agora Ele chorava, por ela, por seus irmãos, as lágrimas caíam dos olhos do Grande Rei e Ele a olhava como se soubesse de algo que ela não sabia, então Ele se levantou e saiu, sem ao menos limpar as lágrimas dos olhos. Ariana pensou em desistir da viagem e ficar com seu Pai, mas seu coração protestou, ela queria muito essa viagem e então seguiu seu coração.
Ao sair do palácio a princesinha viu uma festa e correu para olhar mais de perto, todos pareciam felizes e ela queria dançar, como fazia na corte, mas seus dons ficaram no palácio e ela descobriu que ali, a única forma de dançar era a forma daquelas pessoas, teria que “dançar conforme a musica” como se dizia no lugar, imitou então os passos dos dançarinos que eram ousados e sensuais, as longas saias dos seus vestidos a atrapalhavam e ela, empolgada com a dança acabou por rasgá-las para deixá-las mais curtas, como as dos dançarinos, conheceu então a sensualidade.
A princesa passeou e brincou, comeu a comida do mundo e bebeu de seus elixires, por fim dormiu entre eles e assim acordou.
Algum tempo depois ela descobriu que deveria avançar para o próximo vilarejo do mundo, ali não era tão bonito nem tão festivo, as pessoas dançavam também, mas noutro ritmo mais triste, mais deselegante, ali o grande trunfo eram os discursos e com canções as pessoas ganhavam seu reconhecimento, e podiam ficar em um lugar melhor do vilarejo, Ariana ouviu tantas canções e as achou estranhamente convidativas, decidiu que queria cantar, lembrou-se então que seu canto ficou na corte e como com as danças aprendeu o modo do lugar de cantar, as musicas não eram tão lindas quanto no palácio, e não tinha seu Pai para ouvi-la com aquele sorriso lindo que Ele guardava só pra ela, mas Ariana aprendeu a cantar... E cantou por prestígio, por admiração e também, algumas vezes para lembrar de casa. Conheceu então o orgulho.
Ali Ariana cantou, comeu comidas cada vez menos agradáveis e dormiu entre eles, e assim acordou...
Chegou a hora da princesa seguir para o próximo vilarejo do mundo e ali ela encontrou algo que não imaginava... Era um vilarejo de doentes, pensou estar no lugar errado, estava bem, não estava doente, devia voltar, então olhou para baixo e viu... Uma mancha negra crescia pelos seus pés e pernas e ela começou a chorar, alguém parou do seu lado e disse:
_ Você não pode chorar em publico, deve ser forte e colocar isso no rosto...
_ O que é isso?
_Isto é uma mascara e todos os doentes a usam.
_ Para que serve?
_Para que ninguém veja quem é você de verdade e que ninguém pense que você não está feliz.
_ Mas eu não estou feliz.
_ Shhhhh! Quieta! Ninguém pode te ouvir dizer isso aqui. Porque o segredo deste vilarejo é você parecer e convencer os outros de que é feliz e de repente você acaba achando que é realmente verdade.
Ariana então colocou uma máscara e fingiu ser feliz, sorriu e a cada dia que passava ia esquecendo o que era a real felicidade, naquele vilarejo as pessoas que podiam, dançavam, as pessoas cantavam musicas tristes e músicas amargas com suas vozes sofridas. A princesinha chorava quando ninguém via e sorria tentando enganar a si mesma com a ilusão de felicidade.
A cada dia as manchas em suas pernas cresciam e ela percebeu que se tornara um deles, um dos doentes. Ariana então chorou. Chorou por ver no que tinha se tornado, Ariana conheceu então a Culpa.
Ali a princesa dançou, cantou e dormiu entre eles e assim acordou.
Alguém olhou para a princesa Ariana e disse:
_Não está na hora de ir para o próximo vilarejo menina?
_ Há um outro vilarejo? Por favor, me diga que é melhor do que esse... Diga que tem remédios lá...
_ Remédios? Hahahaha não, não há remédios lá menina, somente mortos.
_ Mas não estou morta...
_ Não ainda, mas vai estar em pouco tempo se continuar por aqui, decidimos que quem está do jeito que você está agora, deve ir para o próximo vilarejo andando e esperar a morte por lá para não termos que carregar corpos estando todos nós doentes.
_ Mas... Deve haver alguém que possa me curar... Aqui não tem médicos?
_ Médicos? Pensa que está onde menina? Aqui não é o Palácio do Altíssimo Rei... Aqui somos todos esquecidos por Ele.
_ Não... Papai não nos esqueceu. Ele nunca esquece ninguém.
_ Que seja princesinha, mas duvido que Ele esteja pensando em você agora...
Sozinha num canto escuro, olhando bem para as suas feridas Ariana lembrou do Seu Pai, do Seu Rei. Da ultima vez que o vira, Seus olhos sempre tão compreensivos estavam transbordando de lágrimas por ela. Ele sabia, sabia o que ia acontecer pediu que ela não fosse, mas ela não ouviu... Como poderia saber? Como poderia imaginar que acabaria desse jeito? Ariana começou a chorar pensando em como seria bom estar em casa, olhou para o lado e viu a caixinha que Se Pai lhe dera.
Era uma caixinha simples de madeira, aparentemente sem valor, tinha o selo Real e estava endereçada a ela. Ariana pensou em abrir a caixa, pensou varias vezes ao longo do caminho, mas nunca tivera coragem, o Pai dissera que era para quando quisesse voltar para casa, mas como ela poderia voltar? Como voltaria desse jeito? Envergonhada, doente, marcada de diversas formas pelo mundo de fora...
Ariana não abriu a caixa antes, mas abriria agora, era o único jeito, ela precisava. Sentia saudades do Pai. Respirou fundo e abriu a tampa, imediatamente um cheiro suave começou a exalar de dentro fazendo-a sentir bem, tinha cheiro de casa. Ali havia uma carta e algumas coisas, abrindo a carta Ariana, que não se sentia uma princesa havia muito tempo leu:
_ Filha, não sabes o quão feliz estou que tenhas aberto esta carta. Então decidistes voltar? O mundo ai fora não é bem o que você queria não é? Saiba que estou pensando em você todos os dias e sinto muito o que te está acontecendo, Eu não posso ir aí te buscar, tu é quem terás que voltar sozinha, com seus próprios pés assim como chegou aí onde estás, mas Eu Sou seu Pai e te amo tanto que nesta caixa você vai encontrar algumas coisas... Primeiro, Passes o bálsamo que te deixei, assim suportarás viajar de volta mesmo com tuas feridas, quando chegares em casa tratarei delas...
Depois de pegar e passar o bálsamo sobre o corpo Ariana se sentiu bem melhor, era quase como estar curada, Seu Pai realmente lhe dera um grande presente, mas então a moça continuou lendo:
_ Melhor agora minha princesa? Bem tente agora achar umas sandálias que te deixei dentro da caixa, elas vão te desligar desta terra suja em que estás e então comece sua caminhada, comece agora, não espere até amanhã, não espere nem um pouco, tudo o que você vai precisar está ai dentro, e outra coisa... Preciso que você tire esta máscara que tem em teu rosto.
Ariana tocou a máscara que passara a quase fazer parte dela e se perguntou como seu Pai saberia que a estava usando... Era uma pergunta tola. Seu Pai era o Altíssimo Rei e sabia tudo sobre todos. Ariana suspirou, não era nada fácil se humilhar e mostrar seu rosto depois de tudo o que acontecera... Depois de tudo o que tinha feito. Ela não era mais uma princesa não era mais tão pura e doce. Definitivamente não era a mesma pessoa que saiu do palácio um dia...
_ Filha, Eu não desisti de você... Nunca vou desistir você é minha princesa, nunca se esqueça disso, nunca, jamais esqueça que Eu, o Altíssimo Rei, Supremo Senhor de tudo, Amo você e daria tudo o que fosse preciso por você. Sei que está se sentindo suja, que está se sentindo culpada e que sente dor em seu pequeno coração, mas ainda assim você é minha. Não deixe que ninguém, NINGUÉM, te convença do contrário... Por fim lembre-se: Os erros de uma princesa não mudam o fato de ela ser filha do Rei! Agora vai filha, tira essa máscara e volta pra casa, volta pra mim...
Ao ler as ultimas palavras da carta, Ariana chorava e retirou a máscara sem pensar em nada além de ver o sorriso de seu Pai mais uma vez, ela então correu, correu por todo o vilarejo até sua porta de entrada, passou por ele e nunca dormia com os outros, se afastou de todos os que a pudessem tentar enganar... Comia somente o que tinha na caixa, coisas que nunca perdiam sua validade que não se desfaziam ou apodreciam, coisas que o Grande Rei tinha deixado pra ela, aprendeu que o bálsamo do Pai lhe fazia seguir adiante apesar das cicatrizes, apesar de ainda doente, passou pelo segundo vilarejo e as pessoas continuavam perdidas em seus discursos e em suas musicas tristes, mas não Ariana, ela já passara por isso e nunca mais iria voltar, sempre que pensava em desistir de voltar para o Pai, se lembrava das palavras Dele: Os erros de uma princesa não mudam o fato de ela ser filha do Rei! Assim tinha ânimo para continuar, e Ariana correu por mais um vilarejo, neste viu novamente as festas e danças animadas de sempre, mas elas não mais a atraiam, porque agora ela já estava perto, já conseguia ver o castelo e correu com todas as suas forças até estancar surpresa... Seu Pai, o Grande Rei estava a sua espera na porta de casa, seus braços abertos prometiam o melhor de todos os abraços e seu sorriso e lágrimas demonstravam Sua emoção. Ariana recuperou o folego e correu ainda mais, se jogando nos braços do Pai que a apertou forte dizendo:
_ Que saudades tive de ti pequena... Me deixaste preocupado.
_ Desculpe Papai, estou tão arrependida, estou doente e cheia de marcas, perdi a essência dos Teus dons e não sei mais como ainda me chamas de princesa.
_ Quando vais entender filha? Os erros de uma princesa não mudam o fato de ela ser filha do Rei! Não importa o que aconteceu, vou sarar tuas feridas, às vezes vai doer, às vezes vai ser difícil voltar a pensar como Eu, mas com o tempo, Te devolverei os teus Dons e Tu Serás quem Eu sempre sonhei que fosses, este tempo que passaste fora só atrasou um pouco os Meus planos, mas você ainda é minha filha, a menina dos meus olhos e a primeira coisa que vamos mudar em você é esta roupa suja, vamos querida e me deixe te dar roupas novas, dignas da filha amada do Grande Rei...
Ariana estava feliz com o sorriso de Seu Pai, ela sabia que não seria fácil apesar de não entender bem o que Ele planejava fazer, mas ela sabia que não desejava outra coisa de sua vida, era extremamente grata por ter a oportunidade de voltar, por ter recebido de volta sua casa, seu lar, tudo isso por um simples presente que Fez toda a diferença...
A caixinha do Grande Rei.



[De Maíra Carneiro para Ariana Carneiro, a essência Real nunca abandona uma Princesa, basta sabermos que de vez em quando vamos precisar nos humilhar e nos deixar sarar mesmo sem entender os planos do Altíssimo, dedico a você que tem se mostrado Grata por ter sido aceita de volta, assim como eu fui um dia, e ainda sou, todos os dias.]

Agradecimento especial ao meu amigo Marcelo  cuja frase inspirou este conto. Obrigada amigo poeta!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Coração surdo



Queria que você pudesse me ver agora
Que pudesse saber
Não estou eufórica hoje
Não estou radiante
Estou confusa
Você conseguiu isso de mim
Conseguiu  me deixar confusa
Eu tentei não te ver olhando pra mim
Tentei não saber que se sentia assim
Então você chegou com seu sorriso bobo
Então você me fez acreditar de novo
Então me fez gostar de sentir
Mas agora nem sei direito o que sinto
Sei que não tenho direito a você
Sei que não é, ou ainda não é meu
Mas tente explicar isso ao meu coração!
Tente fazê-lo ouvir a razão...
Meu coração não é cego.
Ele é surdo.
Pode ver seu sorriso enviando sinais
Pode ver seus olhos me vendo
Mas não pode ouvir que não é tempo
Não pode ouvir que seus olhos mentem
Que você não está pronto pra mim
E que Deus ainda precisa me moldar
Pra receber você
Mas meu coração é surdo
E eu? Estou perdida em você.

Maia Carneiro

sábado, 10 de março de 2012

Ponto Final


Ponto Final

Comecei tudo
com um simples vocábulo,
no meio da história
vivi certas exclamações,
que foram sucedidas por vírgulas,
que me fizeram interrogar
os por quês da vida.
Quando decidi parar com tudo,
ele me fez dar um ponto seguido,
seguido de reticencias...
...mas só agora, tenho a certeza
de que o melhor a ser feito é...
...dar um ponto final.




Por: Meyre Almeida

quinta-feira, 1 de março de 2012

Um Dia a Menos



Estou te esperando querido, 
E cada dia é um dia a menos, até te encontrar
E cada instante eu imagino,
Que encontrei tuas pegadas em meu caminho,
Que encontrei tuas roupas no meu quarto,
Que encontrei seu sorriso.
Que encontrei teus olhos ligados aos meus...
Mal posso esperar,
Para sorrir com você, 
Para falar com você
E até brigar com você...
Mal posso esperar para fazer as pazes...
Mal posso esperar para ouvir tua voz sussurrando meu nome,
Para te abraçar e ouvir as batidas do teu coraçao aos poucos soarem no ritmo das minhas...
Mal posso esperar para beijar os teus labios...
Mas estou esperando querido...
E cada dia é um dia a menos.

Maia Carneiro

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A boneca do Artífice.



Era uma vez uma boneca de cristal, linda que só ela, passeava pela oficina de brinquedos e ninguém a superava em formosura, mas a boneca não estava feliz, ela não queria ser admirada, queria ser amada e aconchegada a uma criança como todas as outras, mas a bonequinha tinha um medo terrível de se quebrar, ela não tinha sido feita para brincar, não tinha sido feito para cair, seu proposito único de existência devia estar em ser observada e elogiada.
Um dia o Artífice Maior, criador de todos os brinquedos a viu triste em sua prateleira e perguntou qual era seu maior sonho, ela O olhou nos olhos e disse:
_ Ah Senhor Artífice... Eu queria ser usada... Mas tenho tanto medo de quebrar, tenho tanto medo de me destruir enquanto faço alguém sorrir. Gostaria de ser uma boneca de pano e de poder abraçar as pessoas e estar perto delas, porque, qual o proposito de uma boneca senão ser o conforto de alguém?
O Artífice a olhou e com Sua grande sabedoria lhe disse:
_ Oh minha querida, você é feita de um material realmente frágil, mas para ser usada, você deve abrir mão de toda essa formosura que tens, não vai mais brilhar e se destacar entre os brinquedos, vai parecer com os outros mas ainda vai ser diferente... Para ser usada, você primeiro vai ter que enfrentar seu maior medo e ser quebrada... Ser quebrada por Mim vou usar somente uma parte tua, e ainda assim vou mudá-la...
_ E que parte vais usar em mim? – disse a boneca meio assustada...
_ Vou lapidar teu coração e depois vou usá-lo vai ser a melhor parte de ti, mas vai estar encoberto debaixo do pano, então vou te usar. Te usar para ser meus braços e abraçar muitas pessoas, vais inclusive consolar algumas lagrimas, alguns vão te desprezar por tua simplicidade e te deixar de lado, outros vão te amar justamente por ela, vais ser uma boneca de pano, macia e com um coração de cristal, mas isso virá depois primeiro precisas ser quebrada e isso é uma decisão que não poderei tomar por ti, tens que escolher por ti mesma abandonar tua formosura e os olhares de distante admiração. O que escolhes boneca?
A pequena boneca pensou e pensou, o medo era muito, medo de quebrar, medo de mesmo depois que se deixasse quebrar as pessoas não quisessem usá-la e ela perdesse a única coisa que tinha que eram os olhares, então olhou nos olhos do Artífice e confiou. Confiou que Ele ia enviá-la que apesar das dificuldades do caminho Ele a usaria para ser Seus braços, ela confiou e então foi um longo processo ser quebrada e lapidada, algumas horas ela pensou em desistir, algumas horas ela pensou em parar, mas o Artífice estava lá... Em cada parte do processo, em cada passo do caminho, seu coração lapidado doeu as vezes, doeu mais do que achou que podia suportar, mas o Artífice estava lá e lhe aplicou unguento... Então ela suportou.
Então uma nova aparência lhe foi dada, toda de pano ela foi costurada, não era mais tão formosa, não brilhava, tinha um sorriso constante e misterioso das bonecas de pano, seus cabelos eram feitos de lã e estavam presos por laços de fita... Sua pele antes fria e reluzente agora era aconchegante e quente... Olhou-se no espelho e quase não se reconheceu, era simples, mas era bonita, bonita aos olhos de quem soubesse olhar, e seu coração se encheu de alegria ao ouvir a sentença do Artífice:
_ Útil!
Era uma única palavra que resumia tudo o que ela sempre quisera ser, sempre quisera ser útil, sempre quisera ser amada, do jeito que somente uma boneca de pano consegue ser...
O Artífice a usou então. E como Ele havia dito ela foi muitas vezes desprezada por sua simplicidade, muita gente a pegou e deixou de lado, mas muita gente a amou justamente por isso, e a cada abraço que recebia seu coração de cristal brilhava de emoção, porque sabia que aquele abraço não era só seu... Era o abraço do Artífice Maior, o abraço do Criador, através dos seus.


Maíra Carneiro para Kelly Vasconcellos [Nem todos vão nos ouvir, nem sempre vai ser fácil o tratamento de Deus, mas quando formos usadas, vamos saber que foi o Criador que nos enviou e vai ser incrível.]


Maia Carneiro

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Mistério de Zerym - Parte I


Guilhes passou a mão nos cabelos como era de costume, eles caiam em sua fronte constantemente e o deixavam irritado, era o único em Zerym que cortava regularmente os cabelos... Os elfos geralmente deixavam os cabelos longos para refletir sua eternidade, quanto mais longos os cabelos de um elfo mais antigo ele era, portanto mais poderoso e sábio, isso, entre outras coisas o transformava em um mistério. Apressando-se pelo caminho difícil das florestas magicas, Guilhes só pensava no fim de sua missão e no retorno ao lar. Como todo elfo adulto ele tinha um aprendiz este o seguia com dificuldades e quase não conseguia pular por cima de uma arvore caída que lhe chegava ao queixo, sendo que Guilhes, mais experiente saltou sem um mínimo de esforço.
- Ah desculpe Lynue não lembrava de você ai. Precisa de ajuda?
- Não senhor, eu consigo. – Guilhes gostava do garoto, era um adolescente de 600 anos e era calado, mas muito inteligente, gostava do silencio e da inteligência então estava bem com seu aprendiz, Lynue era também muito orgulhoso para um elfo tão jovem, e poderia morrer por isso.
- Tudo bem, mas ande devagar os trolls são fortes e se você não os vir eles te matam com um abraço...
- Quando voltamos pra Zerym?
- Depois que matarmos o Crower.
-  Você quer dizer que sua missão é matar um monstro gigante?
- Sim...
- Tá bom.
Continuaram em silencio, Guilhes não tinha medo de matar monstros que ameaçavam seu povo, Crower era um monstro de espécie desconhecida e origem mais desconhecida ainda, tinha a aparência de um coala, um coala cem vezes maior que o normal e com um chifre saindo do meio da testa, era selvagem e guiado exclusivamente por seus instintos. Guilhes estava lá para caça-lo e não pra lutar com ele. A floresta foi ficando deserta, os animais não se faziam ver e Guilhes parou de sentir a presença das dríades dentro das árvores. Devia estar perto. Até começou a sentir o cheiro de Crower, tinha cheiro de morte. Os elfos não haviam matado o monstro antes porque ele ainda não tinha ameaçado Zerym, mas faziam dois dias que a rainha viúva Guinevere foi atacada enquanto fazia um de seus misteriosos passeios.
- Guilhes?
- Sim, Lynue? 
- Como... Você sabe como a rainha Guinevere ficou viúva? Quer dizer... devíamos ser eternos não é?
- Sim, vocês são Lynue, só que o antigo rei gostava de jogar com o perigo e foi morto por um Elfo negro das terras de Satír, que era mais velho e poderoso do que ele.
- Que loucura... Er... desculpe insultar o Rei antigo Guilhes... – o garoto o olhou temeroso esperando uma repreensão.
- ahahahaha, não por isso Lynue, não era meu rei... cheguei em Zerym quando você devia ter só uns cinquenta anos.
- Então você não nasceu no reino?
- Bem... sim nasci no teu reino mas fui embora quando era ainda um bebe. Cresci no mundo humano e quando era um jovem como você fui viver com os Satír.
- Quer dizer que você eh quase um elfo negro?
- ahahah, pode ser, mas eu conheço o ancião que matou Zenirfe, o rei antigo, é muito difícil tirá-lo do sério. Acho que por isso o novo rei não declarou guerra, sabia que seu pai tinha a maior parte da culpa. Não se desafia um elfo ancião! Nunca.
O garoto ficou quieto. Guilhes achava que ele havia falado muito mais que de costume, o que queria dizer que realmente estava curioso.
- Sabe guardar segredos Lynue?
-  Sim senhor que o sei.
- Bem, guarda um segredo meu?
- Sim senhor ficaria muito feliz. – a expressão solene lhe disse que podia confiar e que isso tornaria o garoto mais confiante e portanto menos passível de morte por burrice.
- Não sou um elfo puro. - O queixo do aprendiz quase encostou-se ao chão com a revelação... Guilhes era o melhor guerreiro que conhecera e pelo pouco que sabia era também muito velho, como podia não ser puro? – calma garoto não vou envelhecer e morrer na sua frente ahahahaah, os mestiços vivem anos e anos, e eu sou imortal, ou serei daqui há um ano somente.
- Que quer dizer Guilhes?
- Isso não posso te dizer ainda Lynue.
- Ah.
- Um dia saberá, mas ainda não... Vamos Lynue... Está escutando? Crower está comendo.

Guilhes continuou avançando até chegar a beira de um precipício a cabeça do monstro estava quase no mesmo nível dele por que se encontrava no fundo. Estava comendo uma quimera e o estomago do guerreiro se revirou com a imagem, não era nada bonito ver esse bicho comer. Pegou o arco e uma das flechas élficas, olhou o aprendiz e pediu que ficasse bem parado, mirou no lado do Crower bem atrás da orelha e disparou...

***

- Guilherme!
- Sim mamãe?
O rapaz de aparentemente 16 anos correu até  a cozinha onde estava sua mãe e roubou um pedaço de carne da panela que ela remexia, sua mão doeu por causa da comida quente e ele pôs rápido na boca queimando-a também, depois sorriu para sua mãe esperando um “bem feito” que sempre vinha em vez disso ela disse:
- Filho você tem crescido rápido pra alguém de sua espécie e isso é porque eu mantive você comigo no mundo humano até hoje. Você tem vinte anos e ainda parece um adolescente porque é assim que acontece com os elfos... Você vai ter que ir...
- Ir aonde mãe? Você mesma me disse que não posso ir pra junto do meu pai, você mesma disse que era perigoso.
- Sim Guilherme mas está na hora de você ficar com pessoas magicas... Como você, então vou te enviar para um amigo de seu pai, um elfo negro das terras de Satír, seu nome é Hyfree.
- Elfos negros? Mãe, não sei nada sobre elfos, negros ou não. Sou somente um adolescente tentando ser normal, não sou daqui, mas também não pertenço lá.
- Sim que pertence. Você é filho de...
Guilhes abriu os olhos... Seu sonho foi interrompido pela voz de Guinevere, Alteza viúva de Zerym.
- Olá Guilhes...
- Olá Guinevere...
- Não majestade?
- Não, não majestade... não é minha rainha é?
- Hmm. Matou Crower? – a mulher entrou no quarto de Guilhes e sentou-se na poltrona pouco afastada da cama. Guilhes recostou-se na cama com os braços cruzados acima da cabeça e riu.
- Eu sei Guinevere.
- O que você sabe? Só estou preocupada com os elfos de Zerym, vim fazer-te uma pergunta.
- Pode parar agora Majestade – ele disse a ultima palavra num tom sarcástico que surpreendeu a rainha viúva. – Você é muito... Real para vir até meu quarto saber algo que eu te contaria em algumas horas de qualquer forma. Está aqui pra me sondar... Sondar e saber o que eu sei.
- Quem é você?
- Em breve você saberá. Estamos convivendo juntos há muito tempo... mais de quinhentos anos. Porque somente agora quer saber quem sou?
- Sempre quis saber quem você era. Mas nunca me pareceu muito importante realmente... Bem... enquanto não se meter comigo. Estará seguro Guilhes. Depois disso, já não garanto nada...
Enquanto a rainha viúva se levantava e partia Guilhes começou a rir e fez soar audivelmente a ela:
- Uma ameaça real... Agora já fiz de tudo nesse lugar. Ahahahaha...

Continua...

Maia Carneiro
 

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