Bucaneira adolescente e os Ciganos.
Parte 1
Dill abriu os olhos estranhando a falta de movimento, então reconheceu seu quarto no palácio de PortDemis, depois de dois anos no mar seu pai a havia encontrado e a tinha levado de volta pro reino. Mas a vida de princesa não era o que a jovem bucaneira queria, sentiu-se desconfortável na cama e se virou para ficar de lado. Suas costas a estavam incomodando, já fazia algum tempo, primeiro coçando e depois doendo. Tinha acabado de completar quinze anos e seus pais dariam um baile de mascaras, era a oportunidade perfeita de escapar, essa hora Chakal devia estar chegando para buscá-la, já fazia um mês que não o via, e por mais presunçoso e fantasioso que pudesse ser, ele fazia falta...
Levantou-se da cama e suas costas pareciam ainda mais estranhas como se um peso suave a puxasse para trás, viu um movimento no canto esquerdo atrás de si e se virou de supetão, não havia nada e percebeu o mesmo movimento atrás de si, voltou a virar-se e ainda duas vezes até perceber que tinha algo em suas costas, e que era isso o que ela estava vendo, correu para o banheiro do quarto e se posicionou em frente ao espelho que tomava toda uma parede até dentro do box. Poderia ter esperado tudo. Um gnomo sapeca, tentando pregar-lhe uma peça, um fungo estranho crescendo em suas costas, um molusco ou polvo agarrado em si, mas nunca imaginara isso.
_ Asas... – Ela começou a lagrimar sem perceber – Eu tenho asas? Droga! Droga, droga, droga! Como vou capitanear um navio desse jeito? Ahhhhhh mas que maravilha! Obrigada mamãe Flora por isso, toda herança que eu queria de você sempre foram asas!
Como se não fosse frustração suficiente a jovem começou a ouvir uma voz conhecida chamando o seu nome...
_ Dill... Senhorita Dill temos que ir alteza...
_Chakal chegou... Droga, como vou esconder isso?
_ Dill, rápido... Paguei um velho duende pra nos levar até o cais...
_ Chakal – Dill Falou em voz audível – Eu estou com um problema agora.
_ Droga senhorita, está com dor de barriga? Logo hoje?
_ Não fale besteiras Guardião, meu estomago está ótimo, já minhas costas...
_ Ai Deus, a senhorita se machucou? Estou entrando então...
O jovem de 17 anos poderia se passar por um de 20, pois já possuía os ombros largos e a altura de um homem apesar da pouca idade, sem dar oportunidade de a amiga responder foi entrando e estancou com a boca aberta.
_ Asas?
_ Exatamente o que eu disse quando as vi.
_ Bem, isso não é um problema. Agora você pode simplesmente voar e sair. É uma solução...
_ Não, não, isso é péssimo Chakal, nenhum pirata vai me levar a sério, além de ser jovem e mulher agora tenho asas azuis de fada nas minhas costas...
_ Olhando por esse lado... Que vai fazer então fadinha?
_ Sou meio fada.
_ Então devia ter meia asa ahahahaahah entendeu? Meia asa...
_ Isso não está ajudando, seu idiota... Mas vamos, não posso fazer nada além de enfrentar mais essa barra, vou pegar minha sacola. Sabia que viria hoje.
_ Era o melhor jeito com o baile e tudo... A propósito, feliz aniversário alteza, quinze anos é uma ótima idade, me lembro dos meus... Fui da guarda real aos quinze e encontrei sua alteza...
_ Já disse pra não me chamar de alteza Chakal, sou só uma pirata, você já tinha parado com isso...
_ A senhorita é uma pirata quando está no mar, aqui é minha princesa. E sempre será a realeza não importa onde seus pés – com um elevar de sobrancelhas ele terminou a frase – Ou asas te levem...
_ Cale-se Chakal e vamos embora logo, antes que Paticinha, minha conselheira apareça, ela provavelmente me pediria pra ficar e eu sempre fico com a consciência pesada quando não sigo seus conselhos. Ela deve chegar logo, para me ajudar a escolher meu vestido e ver como estão as costas, estavam doendo ontem...
_ Então vamos Dill. – Eles correram até a janela e desceram pelas trepadeiras que cresciam descontroladas em todo o castelo ultimamente, isso estava enfurecendo o rei...
_ Sabe que acho muito estranho você descendo pelas trepadeiras quando pode simplesmente voar não sabe?
_ Isso só porque você é um idiota, não sei voar seu tolo, eu ganhei essas coisas hoje e não vem com manual de instruções não é como um braço que eu simplesmente controlo...
_ Ah verdade... Mas que é estranho é...
_ Idiota.
Ambos correram por entre as casas e becos da vila sem serem notados já que metade do reino já se recolhera e a outra metade estava já no castelo preparando-se para o baile. Antes de entrar na floresta, Dill começou a ouvir uma música totalmente diferente de tudo que já conhecera, seguiu o som da gaita e das vozes que soavam em uma língua estranha para ela, encontrou várias carroças paradas em uma clareira e se aproximou.
_ Quem são vocês? – Perguntou em sua melhor voz real.
_ Somos ciganos senhorita, - Quem respondeu foi um ancião que estava sentado em frente à fogueira com um coelho assado nas mãos - Estamos de passagem, o Rei da terra não reclama, pois não roubamos seu povo, temos medo da fúria do Ogro.
_ Ahahahahahaha... Papai não os expulsaria daqui tão fácil... Vocês não tem posses e ele foi um mendigo por muito tempo... A não ser que pusessem a vida do povo em risco, então todos morreriam.
_ Ah a jovem fada é filha do rei? É um prazer conhecê-la senhorita...
_ Meu nome é Dill, mas não sou uma fada... Pelo menos não uma completa, sou meio ogro como devem saber...
_Ah sim, sim é verdade... Mas o que faz por aqui Dill?
_ Hmm, pensando bem, acho que podem me ajudar... Quando seu acampamento parte?
_ Amanha, senhorita... Mas porq...
_ Ótimo! – a Bucaneira se animou – Posso seguir viagem com vocês?
_ Porque iria querer isso senhorita?
_ Não sou princesa, ancião, sou uma pirata, meus pais ainda não entenderam isso... Mas se voltar ao mar agora o rei me acha e preciso de um tempo longe da família pra pensar no que fazer com as asas... Gostaria de poder tirá-las...
_ Ahahaha, não precisa tirá-las, a Velha Virginia conhece de magia e pode te ensinar a controlá-las, afinal é somente meio fada, aposto que poderia escondê-las se quisesse.
_ Então é isso. Chakal vai embora assim que amanhecer e eu sigo viagem com vocês. Mandarei uma carta ao palácio depois.
_ Seja bem vinda Dill ao nosso humilde lar... Eu sou Luigi, aqui me chamam velho Luigi e assim você deve fazer. Enquanto estiver aqui seu nome será Liberdade, pois seu espirito livre te trouxe até nós.
_ Obrigada ancião, me corrijo obrigada velho Luigi...
_ De nada criança, este moço lhe espiando é o Rio, seus pais lhe deram esse nome porque ele é forte e suave como o rio, desde que nasceu.
Dill ergueu os olhos e viu um rapaz de pele dourada, provavelmente devido a exposição ao sol, seus cabelos lhe chegavam aos ombros e estavam em parte presos com uma liga ele sorria e o brinco em sua orelha brilhava lhe dando o ar selvagem de um tigre meio preguiçoso.
_ É um prazer conhece-lo Rio...
_ O prazer é todo meu, Dill Liberdade... Quem é o homem com cara de poucos amigos vindo em nossa direção?
Dill virou-se e sorriu ao ver Chakal voltando com dois cavalos, que tinha lhe pedido que comprasse na vila, ninguém se recusaria a vendê-los a ele se achassem que era um viajante qualquer.
_ É meu primeiro imediato e melhor amigo, Guardião Chakal, agora se me desculpa vou ter com ele e explicar como faremos as coisas...
_ Vai liberdade, aqui podes seguir teu nome e fazer o que quiser...
Parte 2
_ Que está fazendo senhorita? Não pode conversar com eles, depois vai ser mais fácil de nos descobrir...
_ Espere Chakal... Nós não vamos mais a lado algum... Eu parto amanhã com os ciganos você vai passar um ano com os vikings, sempre quis ir não foi?
_ Mas Dill temos que ficar juntos, como eu posso proteger a senhorita assim?
_ Vou estar segura com os ciganos, preciso aprender a magia para controlar as asas e quem sabe esconde-las, no fim de um ano vamos nos encontrar debaixo do píer de PortDemis e roubar um navio, meu pai mandou construir o clipper mais rápido que poderia sonhar e vai estar pronto até lá.
_ Tem certeza que estará segura? Não gosto nada da cara daquele cigano magrelo ali...
_ Rio? Ele é legal, deve ter a tua mesma idade, não vai me fazer mal, sei me defender... Você mesmo me ensinou com as adagas lembra? Posso não estar com minha espada, mas ainda tenho todos os punhais.
_ Não estou preocupado que ele machuque seu corpo, ele tem cara de conquistador...
_ Só porque um reconhece o outro? Ahahaha não seja bobo Chakal... Meu amor é o mar.
_ Sei... Tudo bem senhorita Dill se é assim que quer, eu vou, mas só porque os vikings podem me ensinar a te defender melhor, talvez eu quebre a cara desse sujeito antes de ir...
_ Seria uma pena ahahaha... Ele tem uma cara linda.
_ Hum... E diz que só ama o mar...
_ Não posso mais admirar a beleza quando vejo?
_ Dill, tenho que te dizer algo... Eu falei com alguém sobre você no caminho...
_ O que? Quem?
Dill não precisou de resposta quando ouviu uma voz lhe chamando...
_ Dillzinhaaaaaa...
_ Pati? Er, er... Paticinha... Oi.
_ O que está fazendo Bucaneira?
_ Poxa Pati... Eu preciso mesmo ir dessa vez...
_ AHMEUCHINELINHOROSADOPÉESQUERDO! Você tem asas! A Flora vai adorar isso...
_ Ah Pati, não conta nada vai, eu estou indo aprender a escondê-las e a mamis não ia gostar dessa parte...
_ Mas porque iria fazer isso Dill? São lindas.
_ Sim eu sei, mas eu não posso capitanear um navio assim... Os homens nunca iam respeitar uma garota de quinze anos com asas, os dois primeiros já seriam bem difíceis, eu era primeira imediata no navio que trabalhava e tive que ser durona para ter respeito, machuquei muitos insubordinados, e não quero ter problemas com isso de novo.
_ Hum, ainda decidida a ser pirata Dill.
_ Não é uma decisão, é minha vocação Paticinha, eu sou bucaneira de nome de coração e de vontade...
_ Bem, não posso te deixar ir, sou sua conselheira então me escute, espere uns anos e deixe que sua mãe te ensine a magia e seu pai também, quem sabe ele não te ensina a matar umas pessoas com aquelas frases estranhas dele? Por mais que eu ache a violência desnecessária.
_ Obrigada Paticinha, mas não posso... Não posso ficar, não posso cuidar do povo ainda, não aguento todas as aulas de etiqueta da mamis e nem as de desetiqueta do papis... Não quero ser um ogro e não quero ser uma fada... Nem sei o que quero ser Pati, estou confusa com tudo isso só quero um tempo pra pensar... Prometo que te mando notícias...
_ Tá bom Dill, mas se eu pensar que está em perigo digo ao ogro com quem você está...
_ Obrigada Paticinha... – Dill abraçou sua conselheira que se despediu e voltou ao palácio...
_ Chakal como pôde?
_ Ela perguntou... E que me pendurem se um dia eu aprender a dizer não a Senhorita Patrícia Pereira...
_ Ahahaha eu te perdoo só porque sei como é difícil dizer não a Paticinha seu tolo... Agora vamos conhecer o resto do acampamento...
Parte 3
Dill acordou com o cantar do galo, já estava com os ciganos há um mês e ainda tinha asas á mostra, dormir tinha se tornado um incômodo, sempre tinha de dormir de bruços, imaginava como sua mãe conseguia dormir com esses “acessórios” a vida inteira. Saiu da carroça onde dormia e foi buscar água no riacho que estava perto do acampamento, aproveitou para dar um mergulho demorado nas águas gélidas do amanhecer. Estava a cantar uma canção pirata quando ouviu uma voz à frente.
- Não devia tomar banho tão livremente em um lugar tão publico Liberdade, qualquer um te pode ver...
- Sou capitã de um navio pirata Rio, estive de camisa branca em muitas tempestades e não tinha o luxo de trocar de roupas só pra manter o pudor... Mas estou vestida agora vê?
Dito isto a Bucaneira saiu do riacho e Rio viu um traje de banho que parecia ser feito de plantas e que cobriam a moça desde os seios até o meio das coxas. O cigano olhou-a de cima a baixo e ergueu uma sobrancelha...
- Estás te decidindo a ser totalmente fada agora, Liberdade?
- Não... Essa foi à única magia que já aprendi na vida, minha mãe me ensinou quando eu era pequena porque eu adorava me jogar no mar sem roupa.
- Hmm... Tá bom então... Ahahahah, desculpa mas não imagino como seria isso... O que você me diz, remete uma garotinha alegre e meio levada, mas você é sempre tão... Tão... Séria. Acho que fora uns sorrisos para o velho Luigi e a Virginia nunca te vi sorrir.
- Estou aqui há um mês Rio, e ainda não controlo as asas, tente dormir com asas por um mês e depois me diga como sorrir.
- Ahahaha. Tudo bem Bucaneira, vou te ensinar como sorrir, é bem simples. Você é uma pirata, piratas não devem deixar ninguém roubar nada deles certo?
- Certo! Se alguém vai roubar algo que seja eu.
- Então... Todas as vezes que você não sorri porque quer parecer malvada, ou porque está preocupada ou cansada, ou em desvantagem, está deixando um sentimento te roubar a paz, e o elemento surpresa.
- Como assim?
- Bem, você sabe que todos os piratas rosnam e são inteiramente maus o tempo todo e não riem porque acham que isso é fraqueza. Todos sabemos disso, seja diferente. O que as pessoas vão achar de uma pirata que se enfurece e ri assim mesmo, que não tem medo de sentir? Elas ficarão confusas e sem saber o que fazer... Daí o elemento surpresa.
Rio terminou a frase sorrindo seu sorriso felino e Dill o observou, fazia sentido o que ele dizia, sua bipolaridade a levava a constantes picos de alegria e fúria, entretanto ela tinha aprendido a controlar seus sentimentos e mantê-los dentro de si. Seria tão mais fácil somente deixar sair às emoções...
- Vou pensar no que disse Rio, mas agora tenho lições com a velha Virginia.
- Então vai Liberdade, e não esquece tua água.
- Certo... Até mais Rio.
A Velha Vi, como Liberdade a chamava, a estava esperando sentada perto da fogueira acesa que cozinhava o café da manhã, ela sorriu quando a garota se aproximou e disse:
_Bom dia Liberdade, acho que hoje você pode estar pronta a mexer essas asas... O que acha?
- Não podemos pular logo até a parte em que elas somem?
- Não... Não podemos, você não é forte o suficiente. Diga-me como faz o truque das roupas?
- Eu não sei... Faz tanto tempo que mamis me ensinou que se tornou natural, eu simplesmente faço.
- Então terá que descobrir seu próprio jeito, dê um comando as asas para que se movam devagar, mas lembre-se não está lidando com algo puramente físico, na verdade tem mais haver com sentimentos, magia...
- Sei não Velha Vi... Estou tentando mas elas são tão bipolares quanto eu... Ficam sempre quietas quando quero que se mexam e vice-versa.
-Porque você ainda está bloqueando seus sentimentos.
Dill lembrou-se então do que Rio tinha dito sobre seus sentimentos a tornarem diferente e sorriu, se permitiu sentir depois de dois anos, se permitiu ser. Então deu um comando as asas e elas se moveram tão simplesmente como se tivesse nascido com elas então ela se ergueu do chão e deu uma risada:
- Ahaha Estou voando velha Vi...
- Estou vendo pequena, agora venha até aqui.
- Tenho que me concentrar e... Pronto, estou no chão...
- Muito bem, Liberdade, mas, precisa treinar ainda antes que te ensine outra coisa.
- Mas... Velha Vi...
- Não discuta, vá tomar seu café da manha...
Parte 4
Era noite de fogueira no acampamento cigano, Dill estava sentada junto ao fogo ouvindo a melodia que a encantara desde a primeira vez que a ouvira... Seus pensamentos vagavam a ermo até que ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido direito:
_ Onde está navegando tua mente hoje Liberdade?
_ Estava só ouvindo a música Rio.
O rapaz sorriu seu sorriso felino que começara a encantar a Bucaneira nos últimos três meses:
_ E isto é um grande erro Liberdade, só ouvir a música cigana não conta... Tens que senti-la no sangue... Venha... Talvez o que vou te ensinar hoje te ajude com a magia...
Rio tomou a mão de Liberdade e a puxou em direção ao centro do circulo onde as pessoas se assentavam a moça nem pensou em protestar, estava olhando fixamente para os olhos do cigano, Ele sorria e pediu que ela imitasse seus movimentos... Como mágica ela o fez, era como instinto, não tremeu nem hesitou, simplesmente dançou. Suas saias ciganas, roupas que passara a usar quando se mudou para o acampamento cigano, geravam um efeito ainda mais irreal, ela estava focada nos olhos do jovem, que como os seus pareciam flamejar... Suas mãos se tocaram e ele começou a conduzi-la com passos novos. Ergueu-a pela cintura e tornou a baixa-la, seus pés descalços tinham tanta graça quanto o felino de quem roubara o sorriso e ele começou a cantar na língua cigana...
Liberdade... Liberdade chama-me pelo nome...
Sempre quis ser livre e tolo
Sempre quis sorrir de tudo
Sempre quis ser um cigano
Sempre quis amar assim
Por amar a liberdade
Um cigano a vida me quis...
Liberdade... Liberdade chama-me pelo nome, sempre quis ser livre e tolo
Sempre quis correr no campo
Sempre quis ser um cigano...
Essa é a canção da Liberdade
Sem regras estou sem planos
Foi assim que a vida quis
Por isso nasci cigano...
A canção continuava e continuava, Dill não sabia se estavam dançando há alguns minutos ou algumas horas, mas não queria parar, queria dançar até a exaustão, queria dançar com Rio, mas de repente a voz dele foi diminuindo e a música acabando...
“Sempre quis ser livre e tolo,
Sempre quis correr no campo
Por amar a Liberdade
A vida me fez Cigano”
Liberdade suspirou e se deixou ser guiada por Rio até a carroça onde dormia, ele a ergueu pela cintura e sentou-a depois ficou olhando para ela e sorrindo, não disse nada por um bom tempo, ninguém disse. Então ela ergueu a cabeça e admitiu:
_ Isso com certeza foi mágico.
_ Prometi que seria não prometi?
_ Obrigada Rio.
_ Não por isso, Liberdade, sabe... Suas asas brilhavam tanto que eu mal podia tirar os olhos delas, estavam lindas e então... Quando a música foi acabando... Elas foram sumindo.
_ O que? – Dill finalmente percebeu o porquê de se sentir tão leve, suas asas não estavam lá, sua blusa, como todas as outras que tinha conseguido desde seu decimo quinto aniversário tinha um decote profundo em V nas costas para não pressiona-las, então a moça desceu da carroça e pediu que o cigano desse uma olhada:
_ O que vê aí Rio?
_ Suas costas são lindas.
_ Estou falando sério Rio.
_ Eu também. Não sabia que tinhas tantas tatuagens...
_ Não tenho tatuagens.
_ Claro que tens, são lindas, eu acho que são suas asas e acho que podem ser em parte herança do seu pai...
_ Como assim?
_Tens um desenho em azul brilhante semelhante a asas, mas são pequenos no meio das suas costas, em volta delas estão algumas em verde descendo até onde posso ver. São como plantas e flores.
_ Droga!
_ Não, não são uma droga, são lindas, combinam com você.
_ Mas às vezes parece que tenho mais marcas do que posso carregar.
_ Todos nós as temos Liberdade, a única diferença é que as suas são visíveis e talvez isso até seja bom, porque quando vemos nossas marcas temos mais condições de saná-las.
_ Ai Rio, não sei... Às vezes fico pensando quem eu sou na verdade... Fada, ogro, pirata e agora me sinto cada vez mais cigana. Não sei como escolher quem quero ser.
_ E porque terias de escolher? Podes ser quem quiser minha pequena, podes ser fada e ogro, podes ser pirata e cigana... Um dia dançarás em teu navio, um dia dançarás pra mim, ou pelo menos por mim em teu navio.
Dill ficou sem palavras, o que Rio queria dizer com isso? Ele pretendia seguir viagem em Jhonny Rogers? Porque motivo ela dançaria para ele em seu navio? O Cigano pareceu ler seus pensamentos com aquele olhar felino e sorriu:
_ Tem coisas que não precisamos dizer ainda Liberdade, tem coisas que podemos só sentir por enquanto.
Dito isso o Jovem deu um beijo em sua face e saiu com passos lentos e leves que lhe eram característicos, e apesar disso ele exalava uma força, uma força que não se limitava ao físico, e com isso Liberdade passou a entender o porque do nome de Rio. Forte e Suave, e tão indomável quanto qualquer grande Rio. Então Dill percebeu... Percebeu que estava apaixonada.
Parte 5
_ Velha Vi!
_ Diga, menina Liberdade o que quer?
_ O que me vais ensinar hoje?
_ Pensei que só querias aprender a esconder as asas e já às escondeste não foi?
_ Sim, mas ainda não sei como trazê-las de volta, e como prometi ficar um ano não teria nada mesmo para fazer...
_ Então acho que teremos que resolver ainda uns problemas com...
_ Liberdade.
_ Rio!
Ao ouvir a voz do rapaz seu coração deu um salto e sem que ela tivesse controle suas asas apareceram de repente, como que num estalo deixando do ar um brilho azul e um cheiro doce de flores.
_Ah... Droga! Asas odiosas!
_ Ahahahah – a risada estridente da anciã soou por todo o acampamento. – Parece-me que descobriste um modo de ter tuas asas de volta menina ahahah, Rio, querido parece que “assustou” a menina Liberdade... – A ultima frase foi dita em um tom sutilmente irônico que somente velhas ciganas conseguiam usar...
_ Longe de mim Virginia assustar alguém, conte Liberdade o que aconteceu? – Os olhos de Rio estavam focados nos seus e Dill respirou fundo... Como achar uma desculpa se nem conseguia achar seus neurônios dentro da cabeça?
_ Estou bem Rio, só me distrai... Costumo dizer a velha Vi que minhas asas são tão bipolares quanto eu... Aposto que posso escondê-las outra vez.
Dill fechou os olhos e se acalmou, deixou as emoções virem e sabia que nunca daria certo tentar ordena-las então apenas se concentrou nelas, era como se pudesse ver seus sentimentos... Furia, medo, alegria, amor, angustia, tristeza, excitação, felicidade... Todas juntas como que dançando em volta dela e assim selecionou aquela que achava que iria funcionar e concentrou nas asas... Aos poucos as asas foram se tornando transparentes e sumindo até voltarem a redoma de uma tatuagem nas costas da moça...
_ Funcionou não funcionou? – Perguntou tentando ver suas costas, revirando-se como no dia em que descobrira as asas...
_ Sim pequena fada, funcionou perfeitamente. – Disse Rio sorrindo.
_ Onde está a Velha Vi?
_ Não sei pequena, acho que se foi enquanto tu te transformava e eu te olhava... Vais até a vila hoje?
_ Sim que vou... Deve ter uma carta da Paticinha pra mim por lá... Minha conselheira sempre leva a sério seu dever. Eu mandei uma carta dizendo qual meu próximo destino e que estava bem no ultimo vilarejo...
_ Não tem perigo de ter alguém que te leve de volta esperando?
_ Não, não tem. Pati sempre cumpre com sua palavra e me prometeu que não iria interferir a menos que eu estivesse em perigo.
_ Então, vamos Liberdade... Eu te acompanho.
Parte 6
_Vovô Anjo! – Dill correu para abraçar o irmão de sua avó...
_ Não sou teu avô Dill cara de funil. – Disse o Anjo com cara brava de um menino de quem tomaram o brinquedo.
_ Eu sei Anjolino boboca cara de pipoca...
_ E quem é o cigano com cara de frajola depois de devorar o PiuPiu, Dill que não larga seu barril?
_ ahaha O frajola infelizmente nunca devora o PiuPiu Anjolino, e o chamamos de Rio, mas a explicação do nome é poética de mais para minha alma Bucaneira... Mas o que fazes por aqui Anjolino boboca?
_ Segundo... Eu não sou boboca... E primeiro... Eu deveria te fazer essa pergunta, mas já sei a resposta... Eu ia de visita para ver Helena e acabei por fazer esse inconveniente favor a Patrícia... – Disse Anjo estendendo uma carta para a garota... – Tem gente que não sabe a diferença entre um Anjo guerreiro e um mensageiro... Hunf... Mas sabes como é não sabes? Ninguém resiste aos pedidos da Pati...
_ Ahahaha, já ouvi essa história em algum lugar Anjolino... Bem, obrigada de qualquer jeito, foi bom te ver de verdade e diga a Lenita que talvez a visite quando passar pelo Império Do Mal.
_ Ah, tu pensas que és a Patrícia pra me fazer de mensageiro, Dill cara de funil? Vou pensar no teu caso e se me lembrar, talvez dê seu recado a Lena... Tchau Bucaneira, tchau amigo com cara de frajola...
Em seguida Anjo abriu as asas, que deveriam ter pelo menos três metros de uma ponta a outra e saltando voou tão rápido para longe que Liberdade parou para pensar que esse devia ser o motivo de as pessoas sempre acharem que os anjos são seres ilusórios... Rio levantou a mão em aceno, mas, não se moveu de sua posição desleixada, apoiado em uma árvore onde observara o estranho interlúdio de Dill com seu parente Anjo.
_ Vamos Liberdade, vamos pra casa pra que leias a tua carta...
Casa. Essa palavra parecia cada dia combinar mais com o acampamento cigano... Não era seu navio, o navio com que sonhara e não era o Mar... Mas ainda assim... Parecia confortável ser. Simplesmente ser, sem analisar ou medir. Para os ciganos não era necessário se ter uma definição... Era simplesmente bom Ser quem ela era e não precisar explicar quem era essa pessoa...
Casa. A Palavra soou de novo... O que era casa? Afinal nem paravam no mesmo lugar por mais de duas semanas... Dill olhou para a mão de Rio estendida em sua direção, em seguida subiu seus olhos ate o rosto dele e fixou em seu sorriso. O mesmo sorriso felino de sempre, e Dill pensou que talvez aquele sorriso fosse sua casa, que Rio fosse sua casa, não importa onde seus pés pisassem, ainda seria sua casa se Rio estivesse lá. Não! Esse definitivamente não era um pensamento muito bucaneiro... Maldita bipolaridade... Gritou seu coração. Maldito coração Gritou sua mente... Por fim Dill expulsou todos os pensamentos para um cantinho da alma e sorriu... tomou a mão de Rio e pensou... Por uns meses, só por uns meses vou me deixar ser Cigana. Do seu coração somente uma palavra escapou num sussurro:
Liberdade!
Parte 7
Dill abriu os olhos devagar e notou algo estranho sem levantar-se olhou para o peito e o notou cheio de flores do campo, a sua volta, havia flores por todo lado e ela espirrou pelo cheiro forte que exalava delas na carroça abafada.
- Flores, mas quem?
Liberdade ouviu então a voz grave e forte que conhecia bem, chamando-a com a canção da liberdade, saiu esfregando os olhos e nem mesmo tentou controlar os cachos que faziam festa em volta do seu rosto.
- Rio, o que aconteceu? Porque as flores? Atchim!
- Estamos comemorando Liberdade e eu gosto de comemorar com flores.
- E o que estamos comemorando?
- Não se lembra do seu próprio dia da viagem?
- Dia da viagem? Tá falando do meu aniversario?
- Sim sim, acho que vocês o chamam assim.
- ´É verdade Rio, um ano atrás eu estava fugindo do meu baile de 15 anos com um par de asas.
- Estamos nas fronteiras do Império DoMal não queres ver tua avó?
- Lenita! É certo Rio, prometi que ia vê-la
- Vou te deixar às portas do Império, o Imperador não nos deixa entrar , depois te pego...
- Não quer mesmo vir comigo ao Palácio? Te faço entrar sem problemas?
- Não, obrigado, prefiro não ter nada haver com Lords engomados e Bruxos, tenho magia suficiente no meu prato com a Velha Vi e meu sangue Cigano.
- E eu? Não cabe minha magia aí?
- Voce é Liberdade, sua magia corre livre, e tenho dela o que consigo, mas ela não pode ser presa, nem mesmo pode ser guardada, ela não está contida nas tuas asas ou nas tuas roupas, nem mesmo nas tatuagens que carregas nas costas ouna tua força. Sua magia está aqui – Rio tocou o próprio peito para demonstrar em seguida apontou tocando a testa da Bucaneira – E aqui... Seu coração é magico e forte, sabe sentir, sua mente é sabia e criativa, mais magica que qualquer fada ou ogro.
- Nossa, Rio! Você é louco. Ahahahahaha.... Meu coração é louco e meu cérebro é bipolar.
- Não, querida – Rio tocou a bochecha de Liberdade deixando sua mão descansar ali, o coração da moça saltou – Seu coração é livre – Disse o rapaz com a melhor versão do seu sorriso felino – Agora vai... Vai dar teu mergulho no rio que eu te trago o café.
- Não, não preciso de café, vou tomar café com a avó.
- Tudo bem, vou avisar o velho Luigi.
****
Estavam a frente aos portões de ferro do Poderoso Império DoMal e Rio a olhou, serio, parecia preocupado, o que Liberdade estranhou, ele estava sempre sorrindo com suas tiradas sarcásticas que só atingiam os suficiente espertos para entende-las. Ele a tirou de seus devaneios com a frase:
- Vais ficar bem sozinha, Liberdade?
- Não com essas roupas – Disse a bucaneira tentando faze-lo sorrir. Seu corpo foi aos poucoscobrindo-se de névoa e aos poucos a saia cigana simples e a camiseta branca, foram substituídas por um vestido longo azul celeste, digno da mais elegante princesa.
- É melhor que não envergonhe a coroa da senhora minha mãe, principalmente aqui. Olhe Rio e aprenda como é minha cara de princesa... Ah até logo!
- Até depois Liberdade.
Dill Avançou a passos largos com a cabeça erguida e olhou regiamente ao guarda do portão que a olhou8 desconfiado.
- Quem deseja entrar no Império? – Fez a pergunta que devia fazer a cada segundo durante todo o dia.
- Dill Bucaneira Boros, Princesa de PortDemis, Senhora de NeverHouse, neta da Imperatriz DoMal, e gostaria de ver minha avó.
O guerda que até poucos minutos a olhava hostil se atrapalhou com as palavras quando ouviu os títulos.
- Perdoe-me senhorita, entre, eu mesmo a escoltarei à senhora Imperatriz sua avó.
- E qual seu nome?
- Swintter Senhora, Guerreiro dos exércitos DoMal e Guardião do Portão.
- E onde está a Yannisu?
- A guerreira imortal? – Swintter cuspiu pro ladocom um olhar ao mesmo tempo de temor e desprezo – Ela Anda a todo lado atrás de Sua Graça o Imperador, onde já se viu? Uma mulher como guardiã e braço direito do Imperador?
- Poupe-me de suas queixas Velho, Yannisu te mataria em um duelo mesmo que levasse um canivete contra sua espada e provavelmente poderia com ele arrancar seu coração e fazer dele um colar.
Depois de ouvir isso e o guerreiro calou-se e eles caminhavam em silencio. Dill procurou em volta com uma sensação de estar sendo observada:
- É o Império DoMal, é claro que estão olhando sou uma Boros.
A princesa repetia para si, tentando afastar o sentimento, sem saber que num canto do castelo um homem de negro tocava a cicatriz em forma de “B” e fazia a ela uma ameaça e a si uma promessa.
-Logo vem a tempestade, princesa pirata, logo vem...
Parte 8
- Lenitaaaaa... – Dill que guardava ares de aristocrata até o momento, chiou alto enquanto corria para abraçar a mulher a sua frente. – Faz séculos que não te vejo vozinha, sua benção...
- Que a paz seja contigo e que teus dias se prolonguem, e que um dia o amor te encontre tão forte como a tempestade.
– Ou como um Rio – sussurrou a moça que baixou a cabeça ao ouvir a frase sobre o amor, foi uma benção um tanto profética da mulher a sua frente que parecia tão jovem quanto a filha o que sempre fora estranho a Dill.
- Lena diga-me... Como minha mãe pode ser uma fada, o seu irmão ser um anjo e você não ser nenhuma das duas coisas?
- Simples querida... Nasci em PortDemis... – Deu de ombros como se o fato explicasse todo o resto – aprendi cedo que não se pode questionar algo estranho que acontece por lá...
- Um... Que seja... Mas Preciso te pedir que mandes um recado a Rainha Flora e diga que sua filha pequena esta bem e que me viste com teus olhos...
- O que me leva ao fato de que minha neta pequena fugiu antes do seu baile de debutante e me impediu de lhe presentear por isso... Por que o fez?
- ai Lena não tive escolha, meu pai não me deixaria ser pirata e eu preciso do mar.
- E estiveste por quanto tempo ao mar desde que fugiste?
Era estranho, Dill não estivera a bordo desde então, mas sentia falta do mar sentia nos ossos exceto quando estava com o Rio.
- Certo, tens um ponto, mas eu estou voltando daqui ate o porto, e de lá conseguirei me engajar num navio e então estarei no mar outra vez.
Um estrondo assustou Dill a ponto de suas asas, ainda não controladas de todo, aparecerem repentinamente deixando o brilho azul e o perfume floral no ar... Helena que tinha se virado para a porta de trás com o cenho ligeiramente franzido falou sem se virar...
- Não se preocupe querida, Ode contratou um moço estranho que diz ser cientista, mas seja o que for já destruiu metade das... – a frase ficou sem final quando Lena, virando-se deu de cara com as asas de sua neta que brilhavam como que rindo-se do desconforto de Dill com a situação... O vestido magicamente pareceu se modificar para não incomodar a moça, passando a ter uma larga abertura nas costas.
- Er... surpresa – Disse Dill Bucaneira rindo sem jeito a sua avó – foi em parte por elas que fugi aquele dia, agora já quase as controlo mas se me assusto elas saem... Espere.
Dill realizou o ritual com seus sentimentos pela segunda vez no dia, e ao abrir os olhos sua avo a olhava entre encantada e brava...
- Como? Porque as escondes? Mais vale que todos as vejam são lindas...
- Eu sei vozinha mas, é mais cômodo pra dormir, mais pratico e não chama atenção se andar sem elas, apesar de que minhas costas tampouco podem ser chamadas comuns...
- Como ass... – Lena se interrompeu outra vez quando a neta lhe mostrou as costas cobertas pelas tatuagens dizendo:
- Elas seguem ate a parte de trás das minhas pernas pelo que sei. Começaram somente nas costas e foram se espalhando desde a em forma de asas no meio das costas, mas pararam de crescer faz um par de meses, ou isso espero.
- São lindas...
- Sim, parece que mamis e papis disputam por ver quem tem mais influência em meu sangue. – a princesa sorriu ironicamente.
Helena pareceu meditar por um tempo e em seguida sorriu...
- É teu aniversario neta pequena, vamos fazer um banquete em tua honra... dezesseis é ainda melhor do que quinze.
- Desculpe avó, passarei o dia contigo mas tenho que ir a noite, acho que Rio preparou algo para o meu “dia da viagem” como ele costuma chamar...
- Quem é Rio?
- Anjolino não falou que me viu falou?
- Anjo? Não, não disse nada.
- Devia esperar que esquecesse...
- Então quem é Rio?
- Rio é meu... Meu amigo. Tenho aprendido muitas coisas com ele durante o ultimo ano...
- Que espécie de coisas?
- Toda espéc... – Dessa vez foi Liberdade quem abandonou as palavras no meio, quando entendeu o que a imperatriz estava perguntando, a vergonha tingiu suas faces... – Ora avó, não me referia a nada mau, só me ensinou a ser eu mesma e sobre a cultura cigana.
- O amor não é algo mau pequena só me preocupa que seja cedo pra ti.
- Estou bem Lena te asseguro.
O resto da visita passou correndo entre risos e abraços e um bolo de canela que Lena mandou fazer sabendo ser o preferido a Neta. Dill saiu do Palácio prometendo passar o dia seguinte com sua avó e permanecer para o jantar ao passar pelo corredor avistou um rapaz magro e alto olhando fundo pra ela através dos seus óculos tortos, suas roupas brancas estavam manchadas de fuligem e ela adivinhou que este seria o cientista do imperador, ela ia seguir adiante mas ouviu a voz profunda dizendo:
- Majestade... – Liberdade viu a revência um tanto exagerada do moço que parecia ainda mais novo que ela, virou-se de pronto e lhe retribuiu com um cumprimento menos expressivo.
- Olá querido, não acho que me devas chamar majestade...
O rapaz olhou confuso para a coroa em sua cabeça, um presente que Helena insistira que levasse...
- Oh isso? – apontou para a joia... – Realmente não faz diferença, os únicos títulos que me importam são os que conquistamos, no meu caso, como nasci princesa, mas me tornei pirata, eu prefiro capita. – terminando a ultima frase, mudou com magia o vestido caro por uma calça justa, umas botas até os joelhos e uma camisa branca tão larga que escondia suas formas completamente, o lenço azul nos cabelos e as argolas nas orelhas completavam a aparência pirata. – Sou Dill Bucaneira.
O rapaz pareceu engasgar-se. Com os olhos como pratos de tão abertos nem mesmo abriu a boca, a moça riu e se afastou sem se preocupar em mudar a aparência para algo mais digno de uma princesa, a coroa descansava em sua cintura acoplada ao cinto de couro.
Dill abriu os olhos estranhando a falta de movimento, então reconheceu seu quarto no palácio de PortDemis, depois de dois anos no mar seu pai a havia encontrado e a tinha levado de volta pro reino. Mas a vida de princesa não era o que a jovem bucaneira queria, sentiu-se desconfortável na cama e se virou para ficar de lado. Suas costas a estavam incomodando, já fazia algum tempo, primeiro coçando e depois doendo. Tinha acabado de completar quinze anos e seus pais dariam um baile de mascaras, era a oportunidade perfeita de escapar, essa hora Chakal devia estar chegando para buscá-la, já fazia um mês que não o via, e por mais presunçoso e fantasioso que pudesse ser, ele fazia falta...
Levantou-se da cama e suas costas pareciam ainda mais estranhas como se um peso suave a puxasse para trás, viu um movimento no canto esquerdo atrás de si e se virou de supetão, não havia nada e percebeu o mesmo movimento atrás de si, voltou a virar-se e ainda duas vezes até perceber que tinha algo em suas costas, e que era isso o que ela estava vendo, correu para o banheiro do quarto e se posicionou em frente ao espelho que tomava toda uma parede até dentro do box. Poderia ter esperado tudo. Um gnomo sapeca, tentando pregar-lhe uma peça, um fungo estranho crescendo em suas costas, um molusco ou polvo agarrado em si, mas nunca imaginara isso.
_ Asas... – Ela começou a lagrimar sem perceber – Eu tenho asas? Droga! Droga, droga, droga! Como vou capitanear um navio desse jeito? Ahhhhhh mas que maravilha! Obrigada mamãe Flora por isso, toda herança que eu queria de você sempre foram asas!
Como se não fosse frustração suficiente a jovem começou a ouvir uma voz conhecida chamando o seu nome...
_ Dill... Senhorita Dill temos que ir alteza...
_Chakal chegou... Droga, como vou esconder isso?
_ Dill, rápido... Paguei um velho duende pra nos levar até o cais...
_ Chakal – Dill Falou em voz audível – Eu estou com um problema agora.
_ Droga senhorita, está com dor de barriga? Logo hoje?
_ Não fale besteiras Guardião, meu estomago está ótimo, já minhas costas...
_ Ai Deus, a senhorita se machucou? Estou entrando então...
O jovem de 17 anos poderia se passar por um de 20, pois já possuía os ombros largos e a altura de um homem apesar da pouca idade, sem dar oportunidade de a amiga responder foi entrando e estancou com a boca aberta.
_ Asas?
_ Exatamente o que eu disse quando as vi.
_ Bem, isso não é um problema. Agora você pode simplesmente voar e sair. É uma solução...
_ Não, não, isso é péssimo Chakal, nenhum pirata vai me levar a sério, além de ser jovem e mulher agora tenho asas azuis de fada nas minhas costas...
_ Olhando por esse lado... Que vai fazer então fadinha?
_ Sou meio fada.
_ Então devia ter meia asa ahahahaahah entendeu? Meia asa...
_ Isso não está ajudando, seu idiota... Mas vamos, não posso fazer nada além de enfrentar mais essa barra, vou pegar minha sacola. Sabia que viria hoje.
_ Era o melhor jeito com o baile e tudo... A propósito, feliz aniversário alteza, quinze anos é uma ótima idade, me lembro dos meus... Fui da guarda real aos quinze e encontrei sua alteza...
_ Já disse pra não me chamar de alteza Chakal, sou só uma pirata, você já tinha parado com isso...
_ A senhorita é uma pirata quando está no mar, aqui é minha princesa. E sempre será a realeza não importa onde seus pés – com um elevar de sobrancelhas ele terminou a frase – Ou asas te levem...
_ Cale-se Chakal e vamos embora logo, antes que Paticinha, minha conselheira apareça, ela provavelmente me pediria pra ficar e eu sempre fico com a consciência pesada quando não sigo seus conselhos. Ela deve chegar logo, para me ajudar a escolher meu vestido e ver como estão as costas, estavam doendo ontem...
_ Então vamos Dill. – Eles correram até a janela e desceram pelas trepadeiras que cresciam descontroladas em todo o castelo ultimamente, isso estava enfurecendo o rei...
_ Sabe que acho muito estranho você descendo pelas trepadeiras quando pode simplesmente voar não sabe?
_ Isso só porque você é um idiota, não sei voar seu tolo, eu ganhei essas coisas hoje e não vem com manual de instruções não é como um braço que eu simplesmente controlo...
_ Ah verdade... Mas que é estranho é...
_ Idiota.
Ambos correram por entre as casas e becos da vila sem serem notados já que metade do reino já se recolhera e a outra metade estava já no castelo preparando-se para o baile. Antes de entrar na floresta, Dill começou a ouvir uma música totalmente diferente de tudo que já conhecera, seguiu o som da gaita e das vozes que soavam em uma língua estranha para ela, encontrou várias carroças paradas em uma clareira e se aproximou.
_ Quem são vocês? – Perguntou em sua melhor voz real.
_ Somos ciganos senhorita, - Quem respondeu foi um ancião que estava sentado em frente à fogueira com um coelho assado nas mãos - Estamos de passagem, o Rei da terra não reclama, pois não roubamos seu povo, temos medo da fúria do Ogro.
_ Ahahahahahaha... Papai não os expulsaria daqui tão fácil... Vocês não tem posses e ele foi um mendigo por muito tempo... A não ser que pusessem a vida do povo em risco, então todos morreriam.
_ Ah a jovem fada é filha do rei? É um prazer conhecê-la senhorita...
_ Meu nome é Dill, mas não sou uma fada... Pelo menos não uma completa, sou meio ogro como devem saber...
_Ah sim, sim é verdade... Mas o que faz por aqui Dill?
_ Hmm, pensando bem, acho que podem me ajudar... Quando seu acampamento parte?
_ Amanha, senhorita... Mas porq...
_ Ótimo! – a Bucaneira se animou – Posso seguir viagem com vocês?
_ Porque iria querer isso senhorita?
_ Não sou princesa, ancião, sou uma pirata, meus pais ainda não entenderam isso... Mas se voltar ao mar agora o rei me acha e preciso de um tempo longe da família pra pensar no que fazer com as asas... Gostaria de poder tirá-las...
_ Ahahaha, não precisa tirá-las, a Velha Virginia conhece de magia e pode te ensinar a controlá-las, afinal é somente meio fada, aposto que poderia escondê-las se quisesse.
_ Então é isso. Chakal vai embora assim que amanhecer e eu sigo viagem com vocês. Mandarei uma carta ao palácio depois.
_ Seja bem vinda Dill ao nosso humilde lar... Eu sou Luigi, aqui me chamam velho Luigi e assim você deve fazer. Enquanto estiver aqui seu nome será Liberdade, pois seu espirito livre te trouxe até nós.
_ Obrigada ancião, me corrijo obrigada velho Luigi...
_ De nada criança, este moço lhe espiando é o Rio, seus pais lhe deram esse nome porque ele é forte e suave como o rio, desde que nasceu.
Dill ergueu os olhos e viu um rapaz de pele dourada, provavelmente devido a exposição ao sol, seus cabelos lhe chegavam aos ombros e estavam em parte presos com uma liga ele sorria e o brinco em sua orelha brilhava lhe dando o ar selvagem de um tigre meio preguiçoso.
_ É um prazer conhece-lo Rio...
_ O prazer é todo meu, Dill Liberdade... Quem é o homem com cara de poucos amigos vindo em nossa direção?
Dill virou-se e sorriu ao ver Chakal voltando com dois cavalos, que tinha lhe pedido que comprasse na vila, ninguém se recusaria a vendê-los a ele se achassem que era um viajante qualquer.
_ É meu primeiro imediato e melhor amigo, Guardião Chakal, agora se me desculpa vou ter com ele e explicar como faremos as coisas...
_ Vai liberdade, aqui podes seguir teu nome e fazer o que quiser...
Parte 2
_ Que está fazendo senhorita? Não pode conversar com eles, depois vai ser mais fácil de nos descobrir...
_ Espere Chakal... Nós não vamos mais a lado algum... Eu parto amanhã com os ciganos você vai passar um ano com os vikings, sempre quis ir não foi?
_ Mas Dill temos que ficar juntos, como eu posso proteger a senhorita assim?
_ Vou estar segura com os ciganos, preciso aprender a magia para controlar as asas e quem sabe esconde-las, no fim de um ano vamos nos encontrar debaixo do píer de PortDemis e roubar um navio, meu pai mandou construir o clipper mais rápido que poderia sonhar e vai estar pronto até lá.
_ Tem certeza que estará segura? Não gosto nada da cara daquele cigano magrelo ali...
_ Rio? Ele é legal, deve ter a tua mesma idade, não vai me fazer mal, sei me defender... Você mesmo me ensinou com as adagas lembra? Posso não estar com minha espada, mas ainda tenho todos os punhais.
_ Não estou preocupado que ele machuque seu corpo, ele tem cara de conquistador...
_ Só porque um reconhece o outro? Ahahaha não seja bobo Chakal... Meu amor é o mar.
_ Sei... Tudo bem senhorita Dill se é assim que quer, eu vou, mas só porque os vikings podem me ensinar a te defender melhor, talvez eu quebre a cara desse sujeito antes de ir...
_ Seria uma pena ahahaha... Ele tem uma cara linda.
_ Hum... E diz que só ama o mar...
_ Não posso mais admirar a beleza quando vejo?
_ Dill, tenho que te dizer algo... Eu falei com alguém sobre você no caminho...
_ O que? Quem?
Dill não precisou de resposta quando ouviu uma voz lhe chamando...
_ Dillzinhaaaaaa...
_ Pati? Er, er... Paticinha... Oi.
_ O que está fazendo Bucaneira?
_ Poxa Pati... Eu preciso mesmo ir dessa vez...
_ AHMEUCHINELINHOROSADOPÉESQUERDO! Você tem asas! A Flora vai adorar isso...
_ Ah Pati, não conta nada vai, eu estou indo aprender a escondê-las e a mamis não ia gostar dessa parte...
_ Mas porque iria fazer isso Dill? São lindas.
_ Sim eu sei, mas eu não posso capitanear um navio assim... Os homens nunca iam respeitar uma garota de quinze anos com asas, os dois primeiros já seriam bem difíceis, eu era primeira imediata no navio que trabalhava e tive que ser durona para ter respeito, machuquei muitos insubordinados, e não quero ter problemas com isso de novo.
_ Hum, ainda decidida a ser pirata Dill.
_ Não é uma decisão, é minha vocação Paticinha, eu sou bucaneira de nome de coração e de vontade...
_ Bem, não posso te deixar ir, sou sua conselheira então me escute, espere uns anos e deixe que sua mãe te ensine a magia e seu pai também, quem sabe ele não te ensina a matar umas pessoas com aquelas frases estranhas dele? Por mais que eu ache a violência desnecessária.
_ Obrigada Paticinha, mas não posso... Não posso ficar, não posso cuidar do povo ainda, não aguento todas as aulas de etiqueta da mamis e nem as de desetiqueta do papis... Não quero ser um ogro e não quero ser uma fada... Nem sei o que quero ser Pati, estou confusa com tudo isso só quero um tempo pra pensar... Prometo que te mando notícias...
_ Tá bom Dill, mas se eu pensar que está em perigo digo ao ogro com quem você está...
_ Obrigada Paticinha... – Dill abraçou sua conselheira que se despediu e voltou ao palácio...
_ Chakal como pôde?
_ Ela perguntou... E que me pendurem se um dia eu aprender a dizer não a Senhorita Patrícia Pereira...
_ Ahahaha eu te perdoo só porque sei como é difícil dizer não a Paticinha seu tolo... Agora vamos conhecer o resto do acampamento...
Parte 3
Dill acordou com o cantar do galo, já estava com os ciganos há um mês e ainda tinha asas á mostra, dormir tinha se tornado um incômodo, sempre tinha de dormir de bruços, imaginava como sua mãe conseguia dormir com esses “acessórios” a vida inteira. Saiu da carroça onde dormia e foi buscar água no riacho que estava perto do acampamento, aproveitou para dar um mergulho demorado nas águas gélidas do amanhecer. Estava a cantar uma canção pirata quando ouviu uma voz à frente.
- Não devia tomar banho tão livremente em um lugar tão publico Liberdade, qualquer um te pode ver...
- Sou capitã de um navio pirata Rio, estive de camisa branca em muitas tempestades e não tinha o luxo de trocar de roupas só pra manter o pudor... Mas estou vestida agora vê?
Dito isto a Bucaneira saiu do riacho e Rio viu um traje de banho que parecia ser feito de plantas e que cobriam a moça desde os seios até o meio das coxas. O cigano olhou-a de cima a baixo e ergueu uma sobrancelha...
- Estás te decidindo a ser totalmente fada agora, Liberdade?
- Não... Essa foi à única magia que já aprendi na vida, minha mãe me ensinou quando eu era pequena porque eu adorava me jogar no mar sem roupa.
- Hmm... Tá bom então... Ahahahah, desculpa mas não imagino como seria isso... O que você me diz, remete uma garotinha alegre e meio levada, mas você é sempre tão... Tão... Séria. Acho que fora uns sorrisos para o velho Luigi e a Virginia nunca te vi sorrir.
- Estou aqui há um mês Rio, e ainda não controlo as asas, tente dormir com asas por um mês e depois me diga como sorrir.
- Ahahaha. Tudo bem Bucaneira, vou te ensinar como sorrir, é bem simples. Você é uma pirata, piratas não devem deixar ninguém roubar nada deles certo?
- Certo! Se alguém vai roubar algo que seja eu.
- Então... Todas as vezes que você não sorri porque quer parecer malvada, ou porque está preocupada ou cansada, ou em desvantagem, está deixando um sentimento te roubar a paz, e o elemento surpresa.
- Como assim?
- Bem, você sabe que todos os piratas rosnam e são inteiramente maus o tempo todo e não riem porque acham que isso é fraqueza. Todos sabemos disso, seja diferente. O que as pessoas vão achar de uma pirata que se enfurece e ri assim mesmo, que não tem medo de sentir? Elas ficarão confusas e sem saber o que fazer... Daí o elemento surpresa.
Rio terminou a frase sorrindo seu sorriso felino e Dill o observou, fazia sentido o que ele dizia, sua bipolaridade a levava a constantes picos de alegria e fúria, entretanto ela tinha aprendido a controlar seus sentimentos e mantê-los dentro de si. Seria tão mais fácil somente deixar sair às emoções...
- Vou pensar no que disse Rio, mas agora tenho lições com a velha Virginia.
- Então vai Liberdade, e não esquece tua água.
- Certo... Até mais Rio.
A Velha Vi, como Liberdade a chamava, a estava esperando sentada perto da fogueira acesa que cozinhava o café da manhã, ela sorriu quando a garota se aproximou e disse:
_Bom dia Liberdade, acho que hoje você pode estar pronta a mexer essas asas... O que acha?
- Não podemos pular logo até a parte em que elas somem?
- Não... Não podemos, você não é forte o suficiente. Diga-me como faz o truque das roupas?
- Eu não sei... Faz tanto tempo que mamis me ensinou que se tornou natural, eu simplesmente faço.
- Então terá que descobrir seu próprio jeito, dê um comando as asas para que se movam devagar, mas lembre-se não está lidando com algo puramente físico, na verdade tem mais haver com sentimentos, magia...
- Sei não Velha Vi... Estou tentando mas elas são tão bipolares quanto eu... Ficam sempre quietas quando quero que se mexam e vice-versa.
-Porque você ainda está bloqueando seus sentimentos.
Dill lembrou-se então do que Rio tinha dito sobre seus sentimentos a tornarem diferente e sorriu, se permitiu sentir depois de dois anos, se permitiu ser. Então deu um comando as asas e elas se moveram tão simplesmente como se tivesse nascido com elas então ela se ergueu do chão e deu uma risada:
- Ahaha Estou voando velha Vi...
- Estou vendo pequena, agora venha até aqui.
- Tenho que me concentrar e... Pronto, estou no chão...
- Muito bem, Liberdade, mas, precisa treinar ainda antes que te ensine outra coisa.
- Mas... Velha Vi...
- Não discuta, vá tomar seu café da manha...
Parte 4
Era noite de fogueira no acampamento cigano, Dill estava sentada junto ao fogo ouvindo a melodia que a encantara desde a primeira vez que a ouvira... Seus pensamentos vagavam a ermo até que ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido direito:
_ Onde está navegando tua mente hoje Liberdade?
_ Estava só ouvindo a música Rio.
O rapaz sorriu seu sorriso felino que começara a encantar a Bucaneira nos últimos três meses:
_ E isto é um grande erro Liberdade, só ouvir a música cigana não conta... Tens que senti-la no sangue... Venha... Talvez o que vou te ensinar hoje te ajude com a magia...
Rio tomou a mão de Liberdade e a puxou em direção ao centro do circulo onde as pessoas se assentavam a moça nem pensou em protestar, estava olhando fixamente para os olhos do cigano, Ele sorria e pediu que ela imitasse seus movimentos... Como mágica ela o fez, era como instinto, não tremeu nem hesitou, simplesmente dançou. Suas saias ciganas, roupas que passara a usar quando se mudou para o acampamento cigano, geravam um efeito ainda mais irreal, ela estava focada nos olhos do jovem, que como os seus pareciam flamejar... Suas mãos se tocaram e ele começou a conduzi-la com passos novos. Ergueu-a pela cintura e tornou a baixa-la, seus pés descalços tinham tanta graça quanto o felino de quem roubara o sorriso e ele começou a cantar na língua cigana...
Liberdade... Liberdade chama-me pelo nome...
Sempre quis ser livre e tolo
Sempre quis sorrir de tudo
Sempre quis ser um cigano
Sempre quis amar assim
Por amar a liberdade
Um cigano a vida me quis...
Liberdade... Liberdade chama-me pelo nome, sempre quis ser livre e tolo
Sempre quis correr no campo
Sempre quis ser um cigano...
Essa é a canção da Liberdade
Sem regras estou sem planos
Foi assim que a vida quis
Por isso nasci cigano...
A canção continuava e continuava, Dill não sabia se estavam dançando há alguns minutos ou algumas horas, mas não queria parar, queria dançar até a exaustão, queria dançar com Rio, mas de repente a voz dele foi diminuindo e a música acabando...
“Sempre quis ser livre e tolo,
Sempre quis correr no campo
Por amar a Liberdade
A vida me fez Cigano”
Liberdade suspirou e se deixou ser guiada por Rio até a carroça onde dormia, ele a ergueu pela cintura e sentou-a depois ficou olhando para ela e sorrindo, não disse nada por um bom tempo, ninguém disse. Então ela ergueu a cabeça e admitiu:
_ Isso com certeza foi mágico.
_ Prometi que seria não prometi?
_ Obrigada Rio.
_ Não por isso, Liberdade, sabe... Suas asas brilhavam tanto que eu mal podia tirar os olhos delas, estavam lindas e então... Quando a música foi acabando... Elas foram sumindo.
_ O que? – Dill finalmente percebeu o porquê de se sentir tão leve, suas asas não estavam lá, sua blusa, como todas as outras que tinha conseguido desde seu decimo quinto aniversário tinha um decote profundo em V nas costas para não pressiona-las, então a moça desceu da carroça e pediu que o cigano desse uma olhada:
_ O que vê aí Rio?
_ Suas costas são lindas.
_ Estou falando sério Rio.
_ Eu também. Não sabia que tinhas tantas tatuagens...
_ Não tenho tatuagens.
_ Claro que tens, são lindas, eu acho que são suas asas e acho que podem ser em parte herança do seu pai...
_ Como assim?
_Tens um desenho em azul brilhante semelhante a asas, mas são pequenos no meio das suas costas, em volta delas estão algumas em verde descendo até onde posso ver. São como plantas e flores.
_ Droga!
_ Não, não são uma droga, são lindas, combinam com você.
_ Mas às vezes parece que tenho mais marcas do que posso carregar.
_ Todos nós as temos Liberdade, a única diferença é que as suas são visíveis e talvez isso até seja bom, porque quando vemos nossas marcas temos mais condições de saná-las.
_ Ai Rio, não sei... Às vezes fico pensando quem eu sou na verdade... Fada, ogro, pirata e agora me sinto cada vez mais cigana. Não sei como escolher quem quero ser.
_ E porque terias de escolher? Podes ser quem quiser minha pequena, podes ser fada e ogro, podes ser pirata e cigana... Um dia dançarás em teu navio, um dia dançarás pra mim, ou pelo menos por mim em teu navio.
Dill ficou sem palavras, o que Rio queria dizer com isso? Ele pretendia seguir viagem em Jhonny Rogers? Porque motivo ela dançaria para ele em seu navio? O Cigano pareceu ler seus pensamentos com aquele olhar felino e sorriu:
_ Tem coisas que não precisamos dizer ainda Liberdade, tem coisas que podemos só sentir por enquanto.
Dito isso o Jovem deu um beijo em sua face e saiu com passos lentos e leves que lhe eram característicos, e apesar disso ele exalava uma força, uma força que não se limitava ao físico, e com isso Liberdade passou a entender o porque do nome de Rio. Forte e Suave, e tão indomável quanto qualquer grande Rio. Então Dill percebeu... Percebeu que estava apaixonada.
Parte 5
_ Velha Vi!
_ Diga, menina Liberdade o que quer?
_ O que me vais ensinar hoje?
_ Pensei que só querias aprender a esconder as asas e já às escondeste não foi?
_ Sim, mas ainda não sei como trazê-las de volta, e como prometi ficar um ano não teria nada mesmo para fazer...
_ Então acho que teremos que resolver ainda uns problemas com...
_ Liberdade.
_ Rio!
Ao ouvir a voz do rapaz seu coração deu um salto e sem que ela tivesse controle suas asas apareceram de repente, como que num estalo deixando do ar um brilho azul e um cheiro doce de flores.
_Ah... Droga! Asas odiosas!
_ Ahahahah – a risada estridente da anciã soou por todo o acampamento. – Parece-me que descobriste um modo de ter tuas asas de volta menina ahahah, Rio, querido parece que “assustou” a menina Liberdade... – A ultima frase foi dita em um tom sutilmente irônico que somente velhas ciganas conseguiam usar...
_ Longe de mim Virginia assustar alguém, conte Liberdade o que aconteceu? – Os olhos de Rio estavam focados nos seus e Dill respirou fundo... Como achar uma desculpa se nem conseguia achar seus neurônios dentro da cabeça?
_ Estou bem Rio, só me distrai... Costumo dizer a velha Vi que minhas asas são tão bipolares quanto eu... Aposto que posso escondê-las outra vez.
Dill fechou os olhos e se acalmou, deixou as emoções virem e sabia que nunca daria certo tentar ordena-las então apenas se concentrou nelas, era como se pudesse ver seus sentimentos... Furia, medo, alegria, amor, angustia, tristeza, excitação, felicidade... Todas juntas como que dançando em volta dela e assim selecionou aquela que achava que iria funcionar e concentrou nas asas... Aos poucos as asas foram se tornando transparentes e sumindo até voltarem a redoma de uma tatuagem nas costas da moça...
_ Funcionou não funcionou? – Perguntou tentando ver suas costas, revirando-se como no dia em que descobrira as asas...
_ Sim pequena fada, funcionou perfeitamente. – Disse Rio sorrindo.
_ Onde está a Velha Vi?
_ Não sei pequena, acho que se foi enquanto tu te transformava e eu te olhava... Vais até a vila hoje?
_ Sim que vou... Deve ter uma carta da Paticinha pra mim por lá... Minha conselheira sempre leva a sério seu dever. Eu mandei uma carta dizendo qual meu próximo destino e que estava bem no ultimo vilarejo...
_ Não tem perigo de ter alguém que te leve de volta esperando?
_ Não, não tem. Pati sempre cumpre com sua palavra e me prometeu que não iria interferir a menos que eu estivesse em perigo.
_ Então, vamos Liberdade... Eu te acompanho.
Parte 6
_Vovô Anjo! – Dill correu para abraçar o irmão de sua avó...
_ Não sou teu avô Dill cara de funil. – Disse o Anjo com cara brava de um menino de quem tomaram o brinquedo.
_ Eu sei Anjolino boboca cara de pipoca...
_ E quem é o cigano com cara de frajola depois de devorar o PiuPiu, Dill que não larga seu barril?
_ ahaha O frajola infelizmente nunca devora o PiuPiu Anjolino, e o chamamos de Rio, mas a explicação do nome é poética de mais para minha alma Bucaneira... Mas o que fazes por aqui Anjolino boboca?
_ Segundo... Eu não sou boboca... E primeiro... Eu deveria te fazer essa pergunta, mas já sei a resposta... Eu ia de visita para ver Helena e acabei por fazer esse inconveniente favor a Patrícia... – Disse Anjo estendendo uma carta para a garota... – Tem gente que não sabe a diferença entre um Anjo guerreiro e um mensageiro... Hunf... Mas sabes como é não sabes? Ninguém resiste aos pedidos da Pati...
_ Ahahaha, já ouvi essa história em algum lugar Anjolino... Bem, obrigada de qualquer jeito, foi bom te ver de verdade e diga a Lenita que talvez a visite quando passar pelo Império Do Mal.
_ Ah, tu pensas que és a Patrícia pra me fazer de mensageiro, Dill cara de funil? Vou pensar no teu caso e se me lembrar, talvez dê seu recado a Lena... Tchau Bucaneira, tchau amigo com cara de frajola...
Em seguida Anjo abriu as asas, que deveriam ter pelo menos três metros de uma ponta a outra e saltando voou tão rápido para longe que Liberdade parou para pensar que esse devia ser o motivo de as pessoas sempre acharem que os anjos são seres ilusórios... Rio levantou a mão em aceno, mas, não se moveu de sua posição desleixada, apoiado em uma árvore onde observara o estranho interlúdio de Dill com seu parente Anjo.
_ Vamos Liberdade, vamos pra casa pra que leias a tua carta...
Casa. Essa palavra parecia cada dia combinar mais com o acampamento cigano... Não era seu navio, o navio com que sonhara e não era o Mar... Mas ainda assim... Parecia confortável ser. Simplesmente ser, sem analisar ou medir. Para os ciganos não era necessário se ter uma definição... Era simplesmente bom Ser quem ela era e não precisar explicar quem era essa pessoa...
Casa. A Palavra soou de novo... O que era casa? Afinal nem paravam no mesmo lugar por mais de duas semanas... Dill olhou para a mão de Rio estendida em sua direção, em seguida subiu seus olhos ate o rosto dele e fixou em seu sorriso. O mesmo sorriso felino de sempre, e Dill pensou que talvez aquele sorriso fosse sua casa, que Rio fosse sua casa, não importa onde seus pés pisassem, ainda seria sua casa se Rio estivesse lá. Não! Esse definitivamente não era um pensamento muito bucaneiro... Maldita bipolaridade... Gritou seu coração. Maldito coração Gritou sua mente... Por fim Dill expulsou todos os pensamentos para um cantinho da alma e sorriu... tomou a mão de Rio e pensou... Por uns meses, só por uns meses vou me deixar ser Cigana. Do seu coração somente uma palavra escapou num sussurro:
Liberdade!
Parte 7
Dill abriu os olhos devagar e notou algo estranho sem levantar-se olhou para o peito e o notou cheio de flores do campo, a sua volta, havia flores por todo lado e ela espirrou pelo cheiro forte que exalava delas na carroça abafada.
- Flores, mas quem?
Liberdade ouviu então a voz grave e forte que conhecia bem, chamando-a com a canção da liberdade, saiu esfregando os olhos e nem mesmo tentou controlar os cachos que faziam festa em volta do seu rosto.
- Rio, o que aconteceu? Porque as flores? Atchim!
- Estamos comemorando Liberdade e eu gosto de comemorar com flores.
- E o que estamos comemorando?
- Não se lembra do seu próprio dia da viagem?
- Dia da viagem? Tá falando do meu aniversario?
- Sim sim, acho que vocês o chamam assim.
- ´É verdade Rio, um ano atrás eu estava fugindo do meu baile de 15 anos com um par de asas.
- Estamos nas fronteiras do Império DoMal não queres ver tua avó?
- Lenita! É certo Rio, prometi que ia vê-la
- Vou te deixar às portas do Império, o Imperador não nos deixa entrar , depois te pego...
- Não quer mesmo vir comigo ao Palácio? Te faço entrar sem problemas?
- Não, obrigado, prefiro não ter nada haver com Lords engomados e Bruxos, tenho magia suficiente no meu prato com a Velha Vi e meu sangue Cigano.
- E eu? Não cabe minha magia aí?
- Voce é Liberdade, sua magia corre livre, e tenho dela o que consigo, mas ela não pode ser presa, nem mesmo pode ser guardada, ela não está contida nas tuas asas ou nas tuas roupas, nem mesmo nas tatuagens que carregas nas costas ouna tua força. Sua magia está aqui – Rio tocou o próprio peito para demonstrar em seguida apontou tocando a testa da Bucaneira – E aqui... Seu coração é magico e forte, sabe sentir, sua mente é sabia e criativa, mais magica que qualquer fada ou ogro.
- Nossa, Rio! Você é louco. Ahahahahaha.... Meu coração é louco e meu cérebro é bipolar.
- Não, querida – Rio tocou a bochecha de Liberdade deixando sua mão descansar ali, o coração da moça saltou – Seu coração é livre – Disse o rapaz com a melhor versão do seu sorriso felino – Agora vai... Vai dar teu mergulho no rio que eu te trago o café.
- Não, não preciso de café, vou tomar café com a avó.
- Tudo bem, vou avisar o velho Luigi.
****
Estavam a frente aos portões de ferro do Poderoso Império DoMal e Rio a olhou, serio, parecia preocupado, o que Liberdade estranhou, ele estava sempre sorrindo com suas tiradas sarcásticas que só atingiam os suficiente espertos para entende-las. Ele a tirou de seus devaneios com a frase:
- Vais ficar bem sozinha, Liberdade?
- Não com essas roupas – Disse a bucaneira tentando faze-lo sorrir. Seu corpo foi aos poucoscobrindo-se de névoa e aos poucos a saia cigana simples e a camiseta branca, foram substituídas por um vestido longo azul celeste, digno da mais elegante princesa.
- É melhor que não envergonhe a coroa da senhora minha mãe, principalmente aqui. Olhe Rio e aprenda como é minha cara de princesa... Ah até logo!
- Até depois Liberdade.
Dill Avançou a passos largos com a cabeça erguida e olhou regiamente ao guarda do portão que a olhou8 desconfiado.
- Quem deseja entrar no Império? – Fez a pergunta que devia fazer a cada segundo durante todo o dia.
- Dill Bucaneira Boros, Princesa de PortDemis, Senhora de NeverHouse, neta da Imperatriz DoMal, e gostaria de ver minha avó.
O guerda que até poucos minutos a olhava hostil se atrapalhou com as palavras quando ouviu os títulos.
- Perdoe-me senhorita, entre, eu mesmo a escoltarei à senhora Imperatriz sua avó.
- E qual seu nome?
- Swintter Senhora, Guerreiro dos exércitos DoMal e Guardião do Portão.
- E onde está a Yannisu?
- A guerreira imortal? – Swintter cuspiu pro ladocom um olhar ao mesmo tempo de temor e desprezo – Ela Anda a todo lado atrás de Sua Graça o Imperador, onde já se viu? Uma mulher como guardiã e braço direito do Imperador?
- Poupe-me de suas queixas Velho, Yannisu te mataria em um duelo mesmo que levasse um canivete contra sua espada e provavelmente poderia com ele arrancar seu coração e fazer dele um colar.
Depois de ouvir isso e o guerreiro calou-se e eles caminhavam em silencio. Dill procurou em volta com uma sensação de estar sendo observada:
- É o Império DoMal, é claro que estão olhando sou uma Boros.
A princesa repetia para si, tentando afastar o sentimento, sem saber que num canto do castelo um homem de negro tocava a cicatriz em forma de “B” e fazia a ela uma ameaça e a si uma promessa.
-Logo vem a tempestade, princesa pirata, logo vem...
Parte 8
- Lenitaaaaa... – Dill que guardava ares de aristocrata até o momento, chiou alto enquanto corria para abraçar a mulher a sua frente. – Faz séculos que não te vejo vozinha, sua benção...
- Que a paz seja contigo e que teus dias se prolonguem, e que um dia o amor te encontre tão forte como a tempestade.
– Ou como um Rio – sussurrou a moça que baixou a cabeça ao ouvir a frase sobre o amor, foi uma benção um tanto profética da mulher a sua frente que parecia tão jovem quanto a filha o que sempre fora estranho a Dill.
- Lena diga-me... Como minha mãe pode ser uma fada, o seu irmão ser um anjo e você não ser nenhuma das duas coisas?
- Simples querida... Nasci em PortDemis... – Deu de ombros como se o fato explicasse todo o resto – aprendi cedo que não se pode questionar algo estranho que acontece por lá...
- Um... Que seja... Mas Preciso te pedir que mandes um recado a Rainha Flora e diga que sua filha pequena esta bem e que me viste com teus olhos...
- O que me leva ao fato de que minha neta pequena fugiu antes do seu baile de debutante e me impediu de lhe presentear por isso... Por que o fez?
- ai Lena não tive escolha, meu pai não me deixaria ser pirata e eu preciso do mar.
- E estiveste por quanto tempo ao mar desde que fugiste?
Era estranho, Dill não estivera a bordo desde então, mas sentia falta do mar sentia nos ossos exceto quando estava com o Rio.
- Certo, tens um ponto, mas eu estou voltando daqui ate o porto, e de lá conseguirei me engajar num navio e então estarei no mar outra vez.
Um estrondo assustou Dill a ponto de suas asas, ainda não controladas de todo, aparecerem repentinamente deixando o brilho azul e o perfume floral no ar... Helena que tinha se virado para a porta de trás com o cenho ligeiramente franzido falou sem se virar...
- Não se preocupe querida, Ode contratou um moço estranho que diz ser cientista, mas seja o que for já destruiu metade das... – a frase ficou sem final quando Lena, virando-se deu de cara com as asas de sua neta que brilhavam como que rindo-se do desconforto de Dill com a situação... O vestido magicamente pareceu se modificar para não incomodar a moça, passando a ter uma larga abertura nas costas.
- Er... surpresa – Disse Dill Bucaneira rindo sem jeito a sua avó – foi em parte por elas que fugi aquele dia, agora já quase as controlo mas se me assusto elas saem... Espere.
Dill realizou o ritual com seus sentimentos pela segunda vez no dia, e ao abrir os olhos sua avo a olhava entre encantada e brava...
- Como? Porque as escondes? Mais vale que todos as vejam são lindas...
- Eu sei vozinha mas, é mais cômodo pra dormir, mais pratico e não chama atenção se andar sem elas, apesar de que minhas costas tampouco podem ser chamadas comuns...
- Como ass... – Lena se interrompeu outra vez quando a neta lhe mostrou as costas cobertas pelas tatuagens dizendo:
- Elas seguem ate a parte de trás das minhas pernas pelo que sei. Começaram somente nas costas e foram se espalhando desde a em forma de asas no meio das costas, mas pararam de crescer faz um par de meses, ou isso espero.
- São lindas...
- Sim, parece que mamis e papis disputam por ver quem tem mais influência em meu sangue. – a princesa sorriu ironicamente.
Helena pareceu meditar por um tempo e em seguida sorriu...
- É teu aniversario neta pequena, vamos fazer um banquete em tua honra... dezesseis é ainda melhor do que quinze.
- Desculpe avó, passarei o dia contigo mas tenho que ir a noite, acho que Rio preparou algo para o meu “dia da viagem” como ele costuma chamar...
- Quem é Rio?
- Anjolino não falou que me viu falou?
- Anjo? Não, não disse nada.
- Devia esperar que esquecesse...
- Então quem é Rio?
- Rio é meu... Meu amigo. Tenho aprendido muitas coisas com ele durante o ultimo ano...
- Que espécie de coisas?
- Toda espéc... – Dessa vez foi Liberdade quem abandonou as palavras no meio, quando entendeu o que a imperatriz estava perguntando, a vergonha tingiu suas faces... – Ora avó, não me referia a nada mau, só me ensinou a ser eu mesma e sobre a cultura cigana.
- O amor não é algo mau pequena só me preocupa que seja cedo pra ti.
- Estou bem Lena te asseguro.
O resto da visita passou correndo entre risos e abraços e um bolo de canela que Lena mandou fazer sabendo ser o preferido a Neta. Dill saiu do Palácio prometendo passar o dia seguinte com sua avó e permanecer para o jantar ao passar pelo corredor avistou um rapaz magro e alto olhando fundo pra ela através dos seus óculos tortos, suas roupas brancas estavam manchadas de fuligem e ela adivinhou que este seria o cientista do imperador, ela ia seguir adiante mas ouviu a voz profunda dizendo:
- Majestade... – Liberdade viu a revência um tanto exagerada do moço que parecia ainda mais novo que ela, virou-se de pronto e lhe retribuiu com um cumprimento menos expressivo.
- Olá querido, não acho que me devas chamar majestade...
O rapaz olhou confuso para a coroa em sua cabeça, um presente que Helena insistira que levasse...
- Oh isso? – apontou para a joia... – Realmente não faz diferença, os únicos títulos que me importam são os que conquistamos, no meu caso, como nasci princesa, mas me tornei pirata, eu prefiro capita. – terminando a ultima frase, mudou com magia o vestido caro por uma calça justa, umas botas até os joelhos e uma camisa branca tão larga que escondia suas formas completamente, o lenço azul nos cabelos e as argolas nas orelhas completavam a aparência pirata. – Sou Dill Bucaneira.
O rapaz pareceu engasgar-se. Com os olhos como pratos de tão abertos nem mesmo abriu a boca, a moça riu e se afastou sem se preocupar em mudar a aparência para algo mais digno de uma princesa, a coroa descansava em sua cintura acoplada ao cinto de couro.
***
- Olá Liberdade...
Rio estava escorado na mesma arvore em que se despediram e Dill perguntou-se se ele se movera desde a manha, mas, antes que pudesse perguntar o rapaz falou:
- Liberdade... Temi chegar tarde temos que falar... – apesar das palavras urgentes Rio tinha o mesmo tom de voz calmo e a postura relaxada de sempre, só algo que Dill suspeitava dever a magia a advertia que ele estava ansioso.
- Claro Rio, mas, posso te fazer esperar somente um momento mais? O sol esta se pondo e supõe-se que me encontraria com o Chakal hoje, vou usar magia e falar com ele como a velha Vi me ensinou.
- Claro que espero querida, esperar-te-ei o tanto necessário.
- Obrigada Rio – Dando um beijo na face do cigano Liberdade adentrou uma clareira próxima dali e em seu intimo chamou o imediato.
- Chakal, atento Guardião desta princesa, irmão de minha alma protetor designado, preciso falar-te, vem e me encontre em teus sonhos.
- Senhorita Dill? O que acontece? Onde estamos?
Aos poucos a imagem a sua volta mudou e Dill se viu num porto em PortDemis Chakal com um cenho franzido pra ela...
- Estou no Império do Mal Chakal e você em Port Demis, te fiz dormir e entrei em teus sonhos... Só quero avisar-te que te encontrarei no próximo ano, estou longe demais para voltar agora.
- Não senhorita Dill isto não esta certo, tínhamos um acordo...
- Isso mudou Chakal, eu preciso de mais que o mar agora...
- É aquele cigano não é? Enganou a senhorita com sua fala mole...
- Não seja chato Chakal... Nós dois sabemos que se alguém aqui tem fala mole, esse alguém é você , vamos, não se zangue... Estou feliz e segura, era o que queria não era?
- Espero que esteja certa ou eu mato o cigano.
Dill sabia que falava a sério, mas confiava que não aconteceria nada ao Rio pois ele nunca a machucaria...
-O que queria me dizer Rio?
- Quero que sejas Cigana pra sempre mesmo quando te fores em teu navio... Quero mais de ti do que deveria... Quero apresentar-te em uma cerimônia cigana e serás uma de nós pra sempre...
- Mas... Rio estou emocionada, mas teu mesmo irmão vive me chamando de Gadji e alguns outros no acampamento me olham como se...
- Shhhh... – Rio pôs um dedo suavemente sobre os lábios dela a fim de calar sua recusa... – Ramon não é tão tolo quanto parece sabe que não és uma estrangeira, nunca foste uma Gadji, desde que chegou aqui sempre soubemos que tua alma é cigana, ele só não se conforma em que seu irmão mais moço lhe anteceda na escolha dos laços e por isso se diverte encrencando contigo...
- Mas o que queres dizer com isso? De escolha dos laços?
- Mais um ritual cigano querida, logo saberás...
- Bem então vamos, estou um pouco nervosa mas esse é o melhor presente de aniversario que alguém poderia me dar...
***
Liberdade seguia Rio pela floresta com passos hesitantes... Seu coração pulsava como não havia feito nem nas piores tempestades, todos os ciganos a haviam beijado e dito coisas que ela não entendera direito, precisava recordar tudo, as sensações e a felicidade deles e o sorriso enigmático da velha Vi enquanto lhe prendia fitas nos cabelos de diversas cores formando laços... “Ele esta bravo por seu irmão mais novo lhe anteceder na escolha dos laços” a lembrança lhe veio a mente e a confundiu ainda mais, o olhar entendido do Velho Luigi... Tudo muito misterioso.
- Rio... O que esta acontecendo?
- Calma minha Gadji, logo serás definitivamente cigana... Estamos chegando...
Liberdade suspirou aceitando o fato de que Rio com sua infinita paciência iria treinar a dela em seguida estancou surpresa ao entrar numa clareira com flores em volta e um tapete com almofadas espalhadas. Olhou interrogativamente para Rio que sorriu seu sorriso felino, antes de começar:
- Sempre que um cigano escolhe uma Gadji para fazer os laços, ele deve esconder o fato de ela ser a escolhida até que o ritual esteja pronto. É o maior risco que ele pode correr porque se compromete a ser dela antes mesmo do ritual e se for recusado deve levar sozinho seus laços para o resto da vida.
- Você quer dizer que eu sou... Sou sua...
- Sim Liberdade, você é minha Gadji, meu coração... Quero mais de você do que deveria, quero mais do que tenho direito, quero mais do que posso ter... Você é Liberdade e deve poder ir quando quiser, mas, quando te fores levaras ao teu cigano contigo ou pelo menos a alma dele... Amar-te-ei até o dia da minha passagem, e possivelmente depois...
- Rio, eu não sei o que dizer...
O cigano franziu o cenho baixando a cabeça, em seguida a ergueu com os olhos brilhando. – Não me queres não é? Não quer me aceitar, mas teme dize-lo, tem pena de que eu fique só...
- Não Rio. Nunca pense isso... – a moça se aproximou chorando – Você me ensinou a sentir - Pegou a mão do rapaz nas suas e a levou ao peito... – Nunca me fizeste escolher, nunca me deixaste desistir de nada em mim, sente meu coração batendo? É por ti que ele bate. Esse som é um pequeno eco do que sinto por ti... Sou tua pirata e tua cigana, viste minhas marcas e me ensinaste a amar as que não podia sarar, levar-te-ei pra sempre... Em meu navio, em minha vida, e em minha alma, Dançarei contigo em meu navio, dançarei pra ti em meu navio...
- Ou pelo menos por mim...
- Como começamos?
Rio se afastou andando de costas e seus olhos nunca se apartaram dos dela parou em cima das almofadas e sorriu. – Veem minha pequena vem aqui...
Dill se aproximou nervosa... Rio desfez um dos laços do cabelo dela e baixando tomou um de seus tornozelos e beijando-o deu um laço com a fita:
- Teus passos são meus e te protegerei o caminho meus cavalos mais preciosos não se comparam ao teu andar e abandono meu lar, minha carroça, e decido que minha viagem será, não mais por terra senão por mar. – Enquanto falava retirou outra das fitas e prendeu ao próprio tornozelo – enquanto eu viver nunca te tire essa fita pequena....
- Eu prometo – sussurrou Dill com os olhos embaçados de lagrimas.
Rio segurou uma das mãos de Liberdade e puxando de uma corrente um pequeno anel de ouro onde brilhava uma inscrição na língua materna de Rio.
- O que diz? – Perguntou Liberdade.
- Diz, “do seu amor cigano”... – olhou para ela e continuou – Hoje Dill Bucaneira, te tomo por esposa e te chamo Liberdade, me comprometo a pagar por ti o preço dos laços, porque primeiro se unem as almas e só então os corpos se tornarão em um. Serei teu marido e serás meu amor por todos os dias da minha vida. – Sorrindo indicou... – Se queres falar uma coisa, qualquer coisa esse é o momento pequena...
Dill sorria e chorava de uma só vez - Hoje, te tomo por esposo – tirou dos cabelos uma fita, amarrou no dedo de Rio e com um beijo magico a transformou num anel em que figurava uma frase: “ de seu amor Gadji” – Você é minha magia, meu coração... Estarei contigo e tu serás minha casa. Amar-te-ei por todos os dias da minha vida.
Rio limpou as lagrimas dos olhos e sorrindo tomou sua mão e a beijou dizendo:
- Tomo como minhas as tuas mãos e minhas mãos te entrego pequena Gadji, juntos construiremos os laços da vida – Dito isto pediu com gestos a ajuda dela para usar um laço mais para amarrar os pulsos de ambos juntos... Em seguida Dill recebeu do seu marido seu primeiro beijo... Ele a olhou e desatando a fita a amarrou acima da outra em seu tornozelo em seguida achou uma cesta detrás de uma arvore e sentando-se no tapete a chamou para comer...
- Rio... Nós... Eu pensei que quisesse... – Baixou a cabeça envergonhada... – Que fossemos...
- Não faz falta que o explique querida, entendi tua dúvida... Disse que pagaria por ti o preço dos laços lembra o que se seguiu a essa declaração?
- Primeiro se unem as almas.
- Depois os corpos se tornarão um... Isso esposa, o preço dos laços é o tempo necessário para que nossas almas se unam, tenho de esperar um ano... Serás bastante maior então e eu terei dezoito viagens.
- E porque tudo isso? – apontou para as almofadas, não estava frustrada, pois realmente achava que podia esperar um pouco, era jovem ainda.
- Vamos dormir amor – Rio falou de forma natural. – agora come e depois te recoste em mim e durma tranquila, esperarei por ti.
Enquanto dormia, o casal não via o Homem espreitando-os detrás das arvores com seu sorriso cruel e uma cicatriz no rosto em forma de B.
Parte 9
Uma semana se passara desde o casamento, Dill havia mandado uma nota para Helena de que não poderia estar lá, assegurando que estava bem, feliz e que a veria em uma semana, para que a avó não quisesse ir atrás dela e ver o que ocorria... Disse a si mesma que só queria ficar um tempo sozinha com seu marido, mas a verdade é que a sensação de estar sendo seguida não a abandonara em nenhum momento em todos esses dias. Rio parecia absorver cada momento em que estavam juntos, com seu costumeiro sorriso felino e gestos relaxados, mas, só algumas vezes Dill o pegava olhando-a de modo estranho e intenso como se quisesse poder deter o tempo, mas, logo em seguida piscava e sorria, olhando-a com carinho e Liberdade duvidava de que realmente o tivesse visto com aquele olhar tão sombrio.
Mas não era somente isso que a preocupava... Devia dizer a Imperatriz que sua neta pequena havia se casado aos dezesseis anos de idade e tinha medo da reação dela, claro que Lena não seria rude, Dill até duvidava que ela conhecesse o significado da palavra “Rude”, mas, queria que Rio fosse bem recebido pela família e por isso tinha preferido vir sozinha deixando Rio com os Ciganos se despedindo, chegara a hora de partirem, ela queria estar a bordo e ele insistia em falar com o pai dela antes de qualquer viagem por mar que decidissem fazer, ela temia que seu pai machucasse Rio, mas, confiava que apesar de tudo ele teria pernas ágeis se precisasse. Entrou no Reino sem problemas dessa vez e sorriu ao ouvir uma explosão em algum lugar do palácio. “Nunca vai conseguir fazer isso Bryonio, acho que não quero que uses tua ciência pra me transformar num dragão depois de tudo” Era a voz de Ninna, sua tia por afinidade, ela sempre quisera ser um dragão, um sonho que Dill não entendia, entretanto, ela era uma Princesa pirata e cigana, meio ogro e meio fada, com uma ligeira tendência a bipolaridade e não se sentia em posição de estranhar algo. Resolveu que passaria a ver Ninna depois de falar com sua avó, entrou no salão onde a imperatriz costumava tomar o lanche a essas horas. Lena se levantou sorrindo quando a viu se aproximar da mesa.
- Sua benção Lenita...
- Que seus dias sejam muitos e que no dia mau que vem, você possa superar sua dor e voltar a sorrir.
- Que benção mais estranha vozinha... – Dill sentia os cabelos da nuca se eriçarem e um arrepio percorrer seu corpo, Helena piscou e sorriu.
- Verdade que é muito estranha? Tive a impressão... Bem deixe-me olhar para você... Como esta querida?
- Casada vozinha...
- Ca... O que?
- Casada Lenita como você e o Ode...
- Sei o que é estar casada mosquita, mas, não posso crer que fizeste isso tão perto e nem mesmo me chamaste...
- Desculpe Lena, foi uma surpresa inclusive pra mim... Foi um casamento cigano e é assim que se faz...
- Bem, mas, como...? – a frase foi interrompida pelo fato de que a Bucaneira parecia não estar mais ouvindo e se Helena estivesse um pouco mais longe não poderia ter segurado a Neta antes de esta desabar desmaiada no chão...
- O que houve Dill? – Lena dava batidinhas no rosto da neta que acordou, mas, estava tão sombria como uma noite de tempestade.
- Levaram ele Lena... Levaram o Rio... O que vou fazer avó? Ele é meu coração, não posso perdê-lo...
- Quem levou seu marido filha? Do que esta falando?
- Preciso ir Lena... Tenho que ir atrás deles.
Dito isto a moça se soltou da avó e saiu disparada enquanto o vestido se tornava em roupa pirata com exceção da camisa que agora tinha um decote bastante grande na parte de trás de onde saiam suas asas... Voou ao acampamento e disseram que Rio tinha ido busca-la e conhecer sua avó, o que fazia entender que eles nem mesmo sabiam que fora levado... Mas ela vira Rio amarrado e um homem com uma cicatriz em B na face, vira tudo em sua mente... De volta as cercanias do Império Do Mal, Dill procurava por pistas até que viu um grupo de batedores saindo detrás das muralhas, levavam as cores dos Do Mal e Dill adivinhou que sua avó os mandara para ajudar nas buscas, foi ao encontro deles e deu descrição do marido e do estranho sequestrador, um dos batedores franziu o cenho ao ouvir e disse:
- Vamos procurar até encontrarmos majestade. – Fazendo uma reverência eles se viraram e ao se afastarem, Dill ainda pode ouvir uma ultima frase. – Engraçado, a descrição dela... Soa como Diniz não é?
_ Diniz? – Dill reconheceu o nome de uma das historias do seu pai... Droga se for esse Diniz eu preciso me apressar...
Dill tentou mais uma vez contactar com o Rio através de seus pensamentos e dos seus laços.
_ Rio, meu marido, meu amor, desperte o coração pra tua mulher, desperte a mente pra tua Gadji, me ouve amor?
_Te ouço querida... – Mas a voz de Rio soava fraca e não tinha mais o tom descontraído de sempre...
_ Onde Rio? Vou te buscar meu amor...
_ Não... Não venha, quero que fiques segura...
_ Preciso de ti, prometo que não lutarei sozinha mas tem que me dizer onde estás
_ Acho que é um navio, eles tem um dragão Liberdade, me trouxeram, em cima dele, acho que estou em PortDemis...
_ pegarei Chakal e iremos aí...
_ estamos num navio agora Gadji não sei se podes me achar, estou ficando fraco demais pra falar contigo assim...
_ Te acharei minha vida, te trarei de volta
_ Eu te amo Liberdade...
_ Eu te amo Rio.
Parte 10
Dill percebeu que estava chorando, enxugou as lágrimas, tirou as asas e voou, como nunca tinha voado, voou sobre as terras conhecidas durante um ano, não podia igualar com as asas de um dragão por isso voou por dois dias e duas noites até cair no navio viking que planeava sair de viagem dali há uma hora...
_ Chakal! Chakal!
_ Sim Senhor!
_Essa fada parece muito com a princesa pirata que você descreveu...
_ Impossivel Senhor, a Senhorita Dill está no Império DoMal agora e... Senhorita Dill!!!
Chakal ficou atônito ao ver sua princesa exausta desmaiada na sua frente somente uma semana depois de ter falado com ele do outro lado do continente. Pegou a moça no colo e a abraçou, era seu guardião, seu imediato, mas o que não costumava demonstrar e nunca ousaria dizer é que a considerava sua irmãzinha querida, daria sua vida por ela, não porque era o dever dele, mas porque ela era de certa forma sua família. Pediu desculpas ao capitão do Navio Viking, dois deles tiraram suas coisas e as jogaram no cais e ele sorriu...
_É hora de pegar Jhonny Rogers, Capitã. – O jovem disse lembrando o modo como a princesa sempre havia dito que chamaria seu navio, mas Dill não parecia que iria acordar tão cedo.
_ Rio! – Dill ofegava e chorava era noite quando acordou e seu corpo ainda não estava pronto pra uma aventura mas ainda assim levantou...
_ Não, majestade, fique quieta, deve dormir mais um pouco, parece estar exausta...
_ Não Chakal Levaram ele, levaram o Rio tenho que achá-lo.
_ Mas assim vai morrer no caminho Dill.
_Tenho que ir pegar meu navio... tenho que ir... – Dill correu em silencio, sabia que Chakal a estava seguindo, primeiro até um pub proximo onde achou um amigo de infância, um velho duende bêbado que tinha dois amigos humanos e que combinou de ver em breve, no porto... Em seguida para o porto particular da Realeza, Lá estava ele... Seu Navio...
Um Clipper negro como a noite de velas brancas com um brasão da realeza... Mas não seria assim para sempre... Dill se prometeu em silencio.
Roubá-lo foi extremamente fácil e Dill agradeceu ao fato de que ninguém tinha coragem de roubar o Rei Ogro...
Continua...

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